Cão virou gente

por Luís Antônio Giron
Revista Época 16/03/2010

Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV

Tanto o empresário Eike Batista como o presidente Lula já disseram que os brasileiros precisam esquecer que um dia foram vira-latas. No entanto, tenho percebido o contrário, e não só com os brasileiros. Os cães estão se humanizando, à medida que nós, brasileiros e humanos em geral, vamos nos acachorrando.

Não vou entrar na discussão política levantada por Eike e Lula. Limito-me ao aspecto cultural. Cães, gatos e até hamsters estão se sentindo verdadeiros cidadãos do Canadá, ao menos na cidade de São Paulo. Não vejo mais cachorros vira-latas andando pelas ruas, nem latindo nos portões. Acho que aconteceu uma limpeza racial no âmbito canino. O centro de zoonose (nome atual e cientificamente correto para a velha carrocinha) já deve ter eliminado todos os vira-latas.

Até pouco tempo atrás, as casas de família albergavam grande variedade de cães sem raça definida. Havia no máximo um pequinês arreganhando os dentes. E até estes se foram, porque saíram de moda. Era no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, como dizia meu pai.: os vira-latas não usavam coleira, passeavam pelas ruas acompanhando (ou não) seus proprietários e faziam suas necessidades livremente – sem que seu donos precisassem acondicionar parte de seus excrementos em sacos plásticos para jogá-los pelas calçadas e fingir que cumpriram sua obrigação. Eu continuo a gostar de cachorro vagabundo. Mas hoje está tudo mudado. Os cachorros viraram mascotes com pedigree e direitos acima dos humanos. Eles são populares. Celebridades. Passeiam pelos parques e praça com garbo, ostentando seus traços nobres. Boa parte deles possuem até perfil no Orkut e no Facebook.

É o caso da minha cadela Sissi. Ela tem 8 anos, pertence à raça dachshund (o linguiça) e goza de um status especial lá em casa. Além de perfil na internet – onde participa de uma série de comunidades (“amo meu cachorro lingüiça”, por exemplo) – ela é tratada como princesa por minhas filhas. Tem o hábito de ver televisão com elas, e não perde um episódio de Lost. Se eu a deixo fora de casa na hora da série dos Jonas Brothers, começa a ganir desesperadamente. E sou obrigado a trazê-la para dentro.

Ultimamente a Sissi tem-se sentido mal. Parece uma infecção no focinho (“nariz, papai!’, corrigem minhas filhas). Claro que na hora do vamos-ver quem a leva para o veterinário sou eu. Ou melhor, médico. Telefonei para o profissional, que conheço há anos. “Rodrigo?” “Doutor Rodrigo falando” Suspiro e corrijo: “Doutor Rodrigo, a Sissi está respirando mal, o que faço?” Ele disse que provavelmente é “alguma obstrução nas vias respiratórias superiores” e sugeriu que eu passasse no “consultório” para examiná-la. E lá fui eu até o “consultório”, dirigindo e com a cadela ao colo. O doutor receitou um antibiótico, um antiinflamatório, um corticóide para liberar as vias respiratórias. Além disso, ordenou que eu levasse o animal a uma clínica de raios-x para que ela fizesse uma série de chapas.

Marquei as sessões para o sábado passado. Fomos eu e minhas filhas adolescentes. E foi então que me dei conta do estado das coisas. O dia estava chuvoso e os donos de cães e gatos (não vi hamsters por lá) se desfaziam em cuidados com seus mascotes: enrolavam-nos em cobertores, toucas e sapatos. Um ameaçador pitbull era tratado pelo casal de donos como o último rei da Escócia: andando para cá e para lá, trajava um blusão de casimira, um gorro frígio e mascava um chiclete. “Ele é mansinho!”, dizia a dona, acariciando o focinho do bicho com um sorriso. “Nunca matou ninguém!” Basta uma vez, respondi, para o olhar dela mais feroz que o do cão. Uma senhora abraçava o gato real tailandês cinza e peludo como se fosse o seu marido agonizante no leito de morte. Dois meninos e o pai atendiam a todos os desejos de quatro alvos poodles adultos, todos de vermelho e rastejantes feito a Paris Hilton do comercial da Devassa. Um jovem loiro e solitário parecia saído do filme Marley & eu: servindo-se dos lenços de papel finíssimos disponíveis no salão, ele ajudava o seu labrador a degustar o seu sorvete de morango com calda de chocolate. “Meu bebezinho!”, suspirava o cara, sem nenhum tipo de vergonha. “Que gracinha!”, minhas filhas replicaram.

Basta ir a uma dessas clínicas radiológicas para testemunhar esse tipo de cena. Eu, que fui acostumado a vira-latas, só senti repugnância. Depois de uma penosa sessão de raio-x, em que a Sissi se comportou como um verdadeiro animal, revirando-se e não obedecendo, saímos e fomos até um supermercado de cães e gatos para comprar os medicamentos. E mais uma vez eu pude assistir ao triste espetáculo dos seres humanos se rebaixando perante seus animais de estimação. Fico até com pena desses consumidores compulsivos de ração e ossos de plástico que freqüentam mercados e spas caninos. Eu não devia, até porque virei um deles. Mas fico, é inevitável. Tenho a impressão de que nós estamos de coleira, puxados por hordas de bichos humanizados. Parece que os valores ficaram de pernas para o ar. Lembro da canção “Eu não sou cachorro, não”, de Waldick Soriano. “Eu não sou cachorro, não/ Para viver tão desgraçado”, dizem os versos. Hoje eles não têm sentido algum e deveriam ser substituídos por “Eu não sou humano, não…” Até porque é possível fazer um cão cantar afinadamente com aparelhos como o auto-tunes, como esta revista já provou anos atrás. Outro verso a recordar é o do “Rock da cachorra” de Eduardo Dussek: “Troque seu cachorro (uauuu) por uma criança pobre…” Soa como uma afronta social. Onde já se viu convidar alguém a trocar seu animalzinho de raça querido por alguém que poderá desonrar a família, alguém vindo da sarjeta? Que falta de sensibilidade! Atualmente o funk celebra “as cachorras”, um termo que não tem nada de pejorativo, pois designa a mulher poderosa.

Eu posso entender o prestígio dos animais no coração das pessoas. Muitas delas transferem a carência amorosa para seus lulus e bichanos. Conheço uma moça que praticamente se casou com o papagaio porque ele a ouve e lhe canta os últimos sucessos da rádio. Vou poupar o leitor de considerações zoopsicanalíticas e zooantropológicas em torno da transferência de carinho. Só me permitam perguntar aonde as coisas vão chegar. Por exemplo, eu. O doutor Rodrigo acaba de me dizer que Sissi terá de passar por um exame de rinoscopia. Ele me pergunta se tenho plano médico para animais de estimação, eu digo que nunca ouvi falar nisso, e ele me adverte de que o exame vai custar em torno de 600 reais. Eu pergunto: e se, depois de toda essa via-crúcis, ela estiver muito doente, serei considerado um criminoso caso peça ao senhor para sacrificá-la? Ele me olha como se estivesse diante de um dos homens mais pérfidos da História, baixa os olhos e não diz nada. Pelo jeito, em breve a eutanásia será vedada aos mascotes de raça. Teremos de suportar a agonia desses seres de fino trato até o último suspiro. Talvez se a Sissi não tivesse pedigree a reação do médico teria sido diferente. Os cães de raça estão com mais prestígio que os seres humanos quase que por aclamação popular.

Sinto contrariar Eike e o presidente, mas estou me sentindo mais vira-lata do que nunca.




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