Você certamente já ouviu alguém dizer: “Ele tem ciúme até da alma” ou “tem ciúme até do cachorro”, ou ainda “morre de ciúme”. “Eu não tenho ciúme”, “é normal, doentio”… O que não faltam são opiniões e conceitos milenares sobre este sentimento que vaga mais ou menos forte no coração das pessoas, principalmente as apaixonadas.
Muitos dizem que o ciúme faz parte da natureza humana. Pode até ser. O problema é que é muito difícil ser elegante e sensato quando ele fala mais alto que a própria vontade ou quando sofremos a pressão da desconfiança.
Ou os homens se rendem à jornada dupla ou serão extintos
Luís Antônio Giron
Revista Época – 09/03/2010
Escrevo esta crônica no Dia Internacional da Mulher. A situação é irônica porque nesta data eis-me aqui sobrenadando em obrigações, no trabalho e em casa. Há alguns meses tenho vivido a experiência da dupla jornada de trabalho tão abominada pelas mulheres. Atuo ao mesmo tempo como pater familias e rainha do lar. Sinto como se estivesse passando por uma metamorfose e virasse outro animal. Um bicho andrógino cuja existência só poderia se verificar nestes tempos pós-feministas e antimachistas. Sim, leitor, eu me transformei em uma nova criatura. Sou… “pãe”!
E ser pãe é… padecer no paraíso, sem o paraíso. Ser pãe é… entregar a alma em troca de nada. É gemer sem sentir dor. E assim, como pãe exemplar, o meu dia-a-dia é marcado no relógio. Acordo às 5 horas da manhã para preparar o café de minha filha de 17 anos, despertá-la e levá-la de carro ao metrô. Depois volto, acordo a filha de 15 anos e lhe sirvo o café, para em seguida transportá-la até a escola. No retorno, já são quase 8h. Minha vontade é me atirar de novo na cama e dormir até pegar no serviço, às 10h. Mas tenho de varrer a casa, lavar e secar a louça. Preciso chamar o eletricista para consertar as tomadas e dar antibiótico para a cachorra, que está com suspeita de tumor no focinho. A empregada chega e preciso planejar o almoço. Ao mesmo tempo, dou uma olhada nos jornais e tento ler um livro para o trabalho, fazendo anotações a lápis em um bloco. E tenho de dar uma passada no banco porque as contas estão vencendo. Drt pãe é ser pai também.
por Dora Lorch
Era uma mulher interessante, de presença marcante, alta, encorpada, cheia de opiniões para dar, apesar de muito agressiva com a filha, digo com os filhos e agregados. Como tudo começou não faço idéia, mas sei que ela batia tanto na filha adolescente, que a menina vinha cheia de cicatrizes de cortes, e manchas de pancadas. E a Marília era uma amor, além de muito miúda. Os psicólogos e demais autoridades estavam preocupados porque Patrícia sabia que tinha agredido a filha, mas não parecia estar arrependida, pelo contrário avisava aos interessados que ia continuar batendo, que Marília tinha o poder de tirá-la do sério. Na verdade a menina estava grávida e Patrícia não conseguia agüentar este golpe, afinal Marília só tinha 13 anos!
A irritação de Patrícia era sensível. Junto com ela veio o filho mais velho, magrinho, encolhido como a irmã, apesar de seus 26 anos. Ele também quase não falava. Soubemos que era casado pela segunda vez, tinha uma filhinha de quatro anos, e morava na casa dele junto com a mãe e a irmã. Era claro que Mamãe comandava a casa dela e dele.
Bater: lição aprendida em casa
por Dora Lorch
Perder o companheiro quando se ama é uma desgraça. Com filhos pequenos, então, é pior ainda. Ainda mais se a mulher deixou sua profissão para ficar em casa cuidando deles. Quanto mais jovem, quanto menores as crianças, maior é o esforço de criação.
Mas pode-se perder o marido mesmo vivo: para o álcool ou para as drogas. Para lidar com a pressão, a mãe precisa contar com o apoio dos filhos. Em alguns casos, no entanto, a insegurança é tanta que eles passam a mandar na casa, mesmo que sejam pequenos e incapazes de decidir sobre a vida. Crescem pensando que sua vontade é lei e, ao mesmo tempo, sentem que as decisões são muito pesadas.
Homem que é homem não é “café com leite”
por Dora Lorch
Fiquei intrigada com o caso da Dedina, a mulher do prefeito, na novela “A Favorita”, da TV Globo. Ela traiu o marido com o melhor amigo dele e o prefeito a pôs para fora de casa sem direito a nada: sem dinheiro, sem bens, sem casa[1].
Ninguém na cidade (da novela) a ajudou, nem se colocou a seu lado, dimensionando o problema como algo que fere a ética, mas não é crime. Também na vida real ninguém a defendeu. Não li crítica alguma contra a postura do prefeito. O que é sério se pensarmos que as novelas influenciam e muito quem as assiste.
Será que prefeito não tem que seguir a lei? Será que vale o que Nixon[2] disse: “se o presidente fez não é contra a lei”?
“Só um movimento de leitores inteligentes pode mudar os rumos da literatura”
por Luís Antônio Giron
Revista Época – 1/3/2010
O escritor Enrique Vila-Matas fala dos rumos da literatura experimental e de seu romance, Doutor Pasavento, recém-lançado no Brasil
Para muita gente, o escritor catalão Enrique Vila-Matas não existe. “Para mim, Vila-Matas é um personagem de ficção”, disse o diretor de cinema Pedro Almodóvar. Talvez a desconfiança de Almodóvar derive da própria temática das obras de ficção do autor, que acaba espirrando na figura d sujeito real. Vila-Matas escreve sobre personagem que se escondem, sob quaisquer circunstâncias e motivações. No volume de contos Suicídios exemplares (1991), por exemplo, Vila-Matas apresenta um conjunto de dez contos sobre vários tipos de suicidas. No romance Bartleby e companhia (2001), o autor retoma o estranho escrivão que se recusa a cumprir as tarefas cotidianas do escritório em que trabalha em Nova York, famoso personagem do conto “Bartleby”, de Herman Melville, e compara o comportamento de Bartleby com a renúncia ao sucesso do wscritor suíço Robert Walser (1878-1956). Vila-Matas explora a “pulsão pelo nada” desse anti-herói da modernidade. No romance Doutor Pasavento (CosacNaify. 412 páginas, R$ 55, tradução de José Geraldo Couto), agora lançado no Brasil, o autor tranforma a velha obsessão numa espécie de coda sinfônica de tudo o que já escreveu sobre o assunto. O protagonista é um escritor que adota uma identidade falsa – passa a se chamar Doutor Pasavento – e decide desaparecer. Mas, antes, inventa milhares de pretextos, cria histórias e até conta verdades. Com isso, ficção e ensaio se embaralham na narrativa. Enquanto viaja pelos territórios da imaginação e da realidae, o narrador cita e analisa outros escritores que fizeram do sumiço um modo de vida – e de aparecer. São os casos de Robert Walser e da inglesa Agatha Christie, para não falar de J.D. Salinger (1919-1920), a epítome do autor que some e fica ainda mais famoso por causa disso.
por Dora Lorch
Separação de casais, especialmente quando há filhos envolvidos é um problema. Primeiro, porque se as divergências entre duas pessoas é tão grande que causou a separação, quando afastadas as diferenças tendem a aumentar, acrescidas de mágoas e ressentimentos (re- sentimentos: ficar sentindo muitas vezes o que já passou). Mesmo separados é frequente continuar a disputa para descobrir quem está certo e quem está errado.
Nestes casos, os filhos passam a ser uma arma poderosa nas mãos de certos pais. O “jogo” vai desde culpar o outro pela separação, intensificar seus defeitos, acrescentar alguns novos, culpar a separação pela falta de bens materiais. Visa colocar o filho contra um dos pais, ou usar as crianças como desculpa para conseguir o que se quer. Claro que um mesmo salário não pode manter duas casas no mesmo nível que antes. Portanto, colocar a culpa no ex-pai, que agora não liga mais para as necessidades dos filhos é fácil.