A pergunta a não ser feita

por Henrique Schneider

Foi na metade do ano passado. Genaro sonhou que morria ao mesmo tempo de várias formas e acordou empapado num suor frio e mau, afogando-se nos lençóis e perguntando a si mesmo de que modo afinal iria morrer.

Desde aquela manhã triste, passou a ser esta a sua preocupação maior: saber de que modo morreria. Não adiantou a esposa tentar livrá-lo deste desatino que começou a consumi-lo já naquela mesma manhã, explicando – como se fosse necessário – que as pessoas em geral não têm a menor idéia de como serão suas mortes, e que esta ignorância, mais do que não fazer qualquer mal, faz bem às vidas das gentes. Genaro não quis escutar qualquer explicação; talvez eu não seja uma pessoa comum, respondeu, e preciso saber como vou morrer.

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Lady Madonna

por Henrique Schneider

Os homens do marketing da gravadora entraram na reunião decididos a sair de lá com o perfil da nova estrela musical da companhia. Precisavam de um sucesso esplendoroso, algo mega-mega-mega, para faturar milhões de bilhões em todas as moedas.

“Tem que ser muito bonita.” – disse um dos diretores, e todos os outros concordaram.

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Fim de noite

por Henrique Schneider

Ela deve ter uns cinqüenta e vários anos, beirando os sessenta; ele terá um pouco mais. E a vida, logo se vê, não foi generosa com nenhum dos dois: a mulher é um pobre fiapo de cabelos mal pintados e o homem parece mal acomodar-se nuns sapatos brancos que certamente o acompanham há décadas. Mas nenhum peso da história os move enquanto entram juntos na lanchonete ao lado do Clube da Grande Dança, onde bailaram a noite toda como se já se conhecessem há muito tempo. Parece que ainda dançam quando entram na lancheria, reluzentes, ele cumprindo o bom rito de conduzi-la com a leveza do toque da mão nas costas, ela desacostumada a aquele cavalheiresco puxar de cadeiras de quem não se senta enquanto a dama não está acomodada.

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Desculpas

por Henrique Schneider

Mariinha me pediu desculpas na hora em que me deixava. Perdão, disse ela, lágrimas paradas nos olhos. Sempre esta delicadeza, Mariinha, a preocupação miúda de diminuir impactos, como se o pedido de desculpas tivesse o poder de me deixar menos machucado. Mas o tempo inteiro em que estivemos juntos, estes anos em que soube que ela era a mulher da minha vida sem nunca tê-lo dito, Mariinha foi assim todos os dias. Eu, o rugido, o estrondo; ela, a suavidade e o silêncio. leia mais »




A neta da desquitada

por Henrique Schneider

Quando, alguns anos atrás, Saulo apresentou a nova namorada à família, a avó obviamente quis saber de quem a moça era filha. Quando Marilene explicou parte da sua árvore genealógica, desfilando nomes e parentescos, a avó sorriu amarelo e mais não falou até o final do jantar. No dia seguinte, quando lhe perguntaram a razão de tamanho silêncio, explicou sem maiores rodeios:

“Ela é neta da Zulmira.” – e então, como se pronunciasse um palavrão pesado ou confessasse certo pecado grave – “E a Zulmira era desquitada!”

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O cão, os frangos, o tempo

por Henrique Schneider

Os animais, olha só, os animais não têm mesmo a menor noção da passagem do tempo.

Este cachorro, por exemplo.

Está ali, parado como se nada mais existisse, apenas olhando com o seu desejo canino e descerebrado a máquina na qual o dono da padaria, a cada domingo, assa uma dúzia de frangos com endereço certo, para engordar o orçamento. Os frangos, luzidios e exuberantes, dão voltas e voltas leves e lentas sobre si mesmos ao tempo em que tostam suas carnes em direção a paladares pouco exigentes, enquanto o cão, como que hipnotizado por aquele movimento rotativo e imutável, simplesmente não se mexe: está parado em frente à máquina assadeira, atento apenas ao seu paraíso particular.

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Sinal vermelho

por Henrique Schneider

Saulo ainda tentou ultrapassar o sinal em meio ao amarelo, mas o movimento da rua não o deixou. Outro tempo perdido na correria da cidade, pensou ele, antes de perceber o menininho de sete, oito anos que se acercava do vidro fechado de seu carro. Quando o moleque bateu com o nó dos dedinhos mínimos na janela do automóvel, Saulo quase se assustou. Depois baixou o vidro e o menino de pouca infância não se deu ao trabalho de sorrir enquanto lhe pedia uma moeda.

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A dama

por Henrique Schneider

Há quase trinta anos ela mantém a lenda que vive no porão e no quintal de sua casa. Uma vez por mês – ou a cada dois ou três meses, o tempo é o que menos importa – ela abre os portões e as melhores notas entram ainda mais naquela casa onde a música dorme e acorda.

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Ainda Gilda

por Henrique Schneider

Marcelo andava sem compromisso pela avenida principal da cidade quando ela, caminhando com a pressa de quem corre sem saber, deu-lhe um esbarrão quase violento. Antes que prosseguissem em seus caminhos sem desculpas, ele a reconheceu – e, súbita, uma lembrança emocionada apertou-lhe o coração solitário.

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Preto e Branco

por Henrique Schneider

Abrão assistia “Casablanca”, talvez pela décima vez, quando seu filho de cinco anos entrou na sala e parou estarrecido com o que via na televisão.

“Este filme é em preto e branco??” – perguntou o garoto, como se não estivesse entendendo.

“Sim.” – respondeu o pai – e mais não disse, atento que estava às maravilhas dos diálogos entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

“Então a TV está estragada?”

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Amigos imaginários

por Henrique Schneider

Almoçamos junto em um restaurante, às vezes tomamos um café; em raras ocasiões acertamos as agendas para o cinema ou happy hour, sempre curta – daí a pouco já estamos cada qual em sua casa. Não mais do que isso, há anos, mas estes encontros quase regulares acabaram criando, entre eu e ela, uma amizade cheia de bons segredos e silêncios. Nunca fui à casa de minha amiga, nem ela foi à minha: melhor talvez seja apenas imaginar as pequenas intimidades, a plantinha na área de serviço, o livro à cabeceira, o tipo de almofadas sobre o sofá, o canal em que a televisão está ligada. E mais: nem conhecemos os amigos e amigas um do outro. Ela me fala de alguns e eu faço o mesmo sobre os meus, mas são turmas diferentes, que nunca se encontram e talvez tenham pouco a se dizer quando se encontrarem. Porque a amizade é entre eu e ela – simples. E sabemos bem um do outro: há tantos anos conversando sobre os filmes que vemos, os romances sendo lidos, as pessoas com quem saímos, a psicologia dos cafés, a filosofia dos bares, algumas paixões comuns, a vida.

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