Mas o veraneio @contosvidabreve

Outra cena de praia
Henrique Schneider

As famílias da rua moram todas em cidades diferentes e por isso, durante o ano, pouco se vêem ou falam. Meia dúzia de telefonemas, uma ou outra ida à praia nos finais de semana do inverno, e é isso. Mas o veraneio, morando todos na mesma ruazinha de Tramandaí – o veraneio passam praticamente juntos.

Os Oliveira chegaram ontem, as outras duas famílias já estavam na praia. Então é claro que já estão ali, os casais, todos na varanda boa da casa dos Oliveira, sentados nas cadeirinhas de vime, colocando os primeiros assuntos em dia, passando a cuia de mão em mão e inaugurando o copo de caipirinha que o Etevaldo comprou numa banca perto de Osório. Falam de tudo – vida, futebol, fofocas, carestia, projetos – mas sem se preocupar muito com nada. A hora é de férias.

À hora em que elas, por qualquer razão, foram para dentro de casa – preparar talvez alguma janta ou petisco, olhar os móveis novos do quarto, conversar assuntos delas, sei lá -, os maridos, é claro, passaram a falar de mulher. Também sem muita seriedade, já com alguma nostalgia, sabendo todos de suas barriguinhas cinquentonas, e principalmente cuidando para não serem escutados lá de dentro da casa (onde talvez elas estejam falando da beleza dos meninos na beira da praia). Enfim, falam em ritmo de férias.

Até que, na esquina, apontam duas moças, uma mais bonita do que a outra, e o Betinazzi não se contém:

“Olha só que maravilha! Que coisa linda! Nossa mãe!…”

Os outros dois também acompanham o andar das meninas, que se aproximam, e o estranho é que nenhum deles secunda o comentário. Até que as garotas entram no pátio e a mais alta – filha do Oliveira, e que crescera uma enormidade de um ano para o outro -, cumprimenta a todos com seu sorriso adolescente.

“Oi, tios, tudo bem?” – e entram em casa, as duas – certamente tem mais a fazer.

Os homens ficam ainda num silêncio constrangido, durante uns segundos, até que o Betinazzi atina em dizer:

“Eu falei da outra.”

Os outros concordam com uns sorrisos amarelos e, durante uns segundos, novamente ninguém diz nada. Até que o dono da casa olha para aquele céu limpíssimo e diz, sabe-se lá de onde:

“Acho que amanhã chove.”

E eles começam a falar do tempo, agarrando-se ao clima como se este fosse um assunto urgente. Mas alguma coisa se quebrou ainda há pouco.




São dois silêncios que se olham. @contosvidabreve

Dois Silêncios
Henrique Schneider

São dois silêncios que se olham.

É incisivo, o do garçom; o do cliente, não: o homem parece sequer perceber o que há ao seu redor.

O olhar do garçom tem lá suas razões: são duas e meia da manhã neste bar de madrugadas, e, por razões que ninguém sabe, o lugar está quase vazio: apenas o homem na mesa ao lado da janela, bebendo solitária dose de uísque barato. O garçom leva mais de vinte anos de profissão e sabe quão valiosas são as noites em que consegue descansar mais cedo, e agora só o que pensa é que, não fosse aquele bebedor sem nome ou expressão, já poderia estar em casa, dormindo ao lado da mulher o sono dos justos. Debruçado sobre o balcão, toalha branca pendurada no braço quase que por costume, ele sente sobre os ombros o peso inexato destas duas décadas e olha para aquele cliente desejando apenas que ele vá embora. Este uísque, o homem bebe sem pressa há quase uma hora, sabe-se lá o que estará pensando – mas o garçom não quer saber. Não quer s er o psicólogo que dizem que todo o bom garçom é, não quer entender o silêncio carregado que vem daquele mesa. Só quer ir embora.

Mas o cliente parece não querer. Bebe sem pressa e sem prazer, como se fosse uma obrigação, e olha para o garçom com um olhar que atravessa paredes sem perceber. É um olhar sem rumo que, vez por outra, levanta o copo e sorve um gole deste uísque de gosto perdido. Uma hora bebendo deste mesmo copo. Talvez hoje ele tenha perdido o emprego, a grande oportunidade de sua vida, talvez hoje tenha perdido a mulher, quem sabe. Ou talvez seja alguma tristeza pura e simples, algumas pessoas têm mesmo esta vocação de ser tristes. Talvez.

De repente, o cliente se levanta e o garçom se anima; se o homem pedir a conta agora, ainda haverá tempo de pegar na cama o calor benfazejo da esposa. Mas não: o outro apenas segue em direção ao banheiros, passos mais tímidos que trôpegos. O garçom tem vontade de aproveitar aquela ausência indecisa, ir até a mesa e jogar fora aquela água suja que o homem toma por uísque, forçá-lo a uma decisão. Mas só pensa, nem se mexe: nunca faria isso.

O homem então volta e examina o copo, parece imaginar o que o garçom havia imaginado. Então seus olhares se cruzam, indefinidos, e o garçom pergunta – por dever do ofício, porque faz isso há vinte anos, porque não sabe fazer de outro jeito – se o cliente deseja mais alguma coisa.

O homem olha novamente para o copo e parece pensar no que deseja. E então pede uma nova dose de uísque.

“É pra já, cavalheiro.” – diz o garçom, levando ao homem o outro copo.

E então os dois silêncios novamente se olham.




Só pode ser brincadeira, eu disse. @contosvidabreve

Brincadeira
Henrique Schneider

Só pode ser brincadeira, eu disse.

Só pode ser brincadeira, repeti, porque Sara sempre foi muito brincalhona, o riso colorido voejando sempre pela morada em que há cinco anos bem dividimos nossas vidas. Ela não respondeu nada, apenas me olhou com uns olhos desistidos (certo: é parte da brincadeira de Sara), enquanto continuava colocando as suas roupas na mala e repetindo apenas que não agüentava mais, não agüentava mais. Parecia dizer isso apenas para si, pouco importando se eu escutava ou não. Tentei tocá-la, a fim de que me olhasse e então prestasse em mim alguma atenção maior, mas ela evitou aquele toque com uma violência medida, exata (Sara sempre elabora bem as suas brincadeiras), e fechou a valise sem maior cuidado, deixando esquecidas umas tantas peças, os armários cheios, como se tivesse pressa. Dentro da maleta, só as mudas de roupa mal escolhidas de quem parece que precisa fazer uma viagem de última hora. Apenas me olhou num instante para dizer que voltaria outro dia a buscar o resto, quando eu não estivesse em casa (me olhou séria, ela; impressionante como consegue não rir nestas horas). Então foi à estante e agarrou meia dúzia de livros, sem se ater em demasia a qualquer dos títulos, e aí também parecia que apenas desejava sair dali o mais rápido possível, mas o que fez foi andar até o aparelho de som, sem olhar para mim (sempre como se eu não estivesse ali, ela finge bem). Escolheu uns tantos discos, dez, doze, todos os ritmos, e quando reclamei por um deles, entrando eu também na brincadeira, ela o atirou no chão como se a música não prestasse mais. Depois, nem prestou atenção à caixinha quebrada. Colocou os livros e os CDs numa sacolinha de juta que, passando por mim ainda como se eu não existisse (é claro, isso faz parte da brincadeira, eu já disse que Sara sabe brincar bem), pegara num sopetão, pendu rada atrás da porta da cozinha. Tudo como se estivesse brava e sozinha em casa, com ninguém mais – os jogos de Sara sempre estudados, sempre. E então me atravessou novamente, carregando as poucas roupas e os livros e os CDs, abrindo com decisão a porta do apartamento e fechando-a numa batida brusca e seca, saindo sem se despedir, sem sequer olhar para mim. Fiquei um tempo esperando que a porta abrisse novamente e ela voltasse sorrindo e dizendo que era tudo brincadeira, mas não: Sara não seria amadora de fazer isso assim tão logo, desfazer tão rapidamente o jogo, e então o apartamento ficou em silêncio. O silêncio. Mas ela vai voltar daqui a pouco, tenho certeza. Porque isso que ela fez é uma brincadeira, só pode ser.

Tem que ser.




Eu queria te trazer o mundo @contosvidabreve

Oferenda
Henrique Schneider

Eu queria te trazer o mundo – mas não é o que tenho e nem o que queres. Quem sabe então um campo inteiro de rosas não colhidas, mas onde os meus braços para abraçá-lo? Então a maciez da relva coberta de orvalho, mas quebraram-se os cântaros de recolhê-la. Ou o conforto ensolarado de um domingo de inverno – e, no entanto, me faltam dedos para colher o sol. Também poderia trazer-te uma pedra cheia e toda vestida de ouros e diamantes, mas nestas mãos que te estendo só cabem os cascalhinhos pequenos de minha vida vagamunda. Ou o brilho refletido das estrelas no lago, apanhadas no batel da noite, mas e se os meus olhos são feitos de dia? E, quem sabe então, o aroma que recende das lembranças das viagens? – mas o meu c oração ainda conhece tão pouco e deseja tão mais, tão mais. Queria te trazer o calor de todas as fogueiras, e, no entanto, ele vira gelo frente à quentura de teu olhar – então não o trago. As cores dos quadros não pintados e as palavras ainda não escritas nos livros – pensei nisso e não pensei, tentei trazê-los e também não tentei, e quando o fiz eles se desfizeram no caminho. E também queria te oferecer o tempo, mas o jornal de ontem não quis embrulhá-lo e não quero ainda agora as notícias de amanhã. Ou te oferecer o meu próprio tempo, este tempo todo que ainda tenho – mas não é o meu tempo o que deves desejar. Pensei em trazer-te o vento e desisti quando lembrei que ele já vive nas curvas dos teus cabelos. Uma cesta inteira de frutas que não existem, para que guardasses contigo todos os sabores, mas meus saltos curtos não alcançaram os galhos das árvores impo ssíveis. Então talvez um pote cheio de delicadezas, pensei, e, no entanto, elas seriam tão poucas junto às tuas tantas. Ou um livro inteiro das minhas ignorâncias, mas elas não cabem em um livro só. O cheiro dos eucaliptos no outono, o brilho do vôo cego dos anjos, o bater de asas dos colibris, a fonte eterna – tudo isso também quis trazer-te em oferenda, só que não tenho as forças nestes meus braços magros.

Pensei, por fim, te trazer todas as certezas – mas se eu ainda sou apenas um menino!

Não te ofereço nenhuma destas maravilhas. Elas não me cabem.

Por isso, só o que te trago agora são estas mãos vazias, e este jeito meio torto de me apaixonar.




Acerto de contas por Henrique Schneider

por Henrique Schneider

Quando desembarcou na minúscula rodoviária de Campo Seco, tudo o que Berenice tinha era a fotografia antiga e o desejo difuso de finalmente acertar as contas com o homem que, quarenta anos atrás, a fizera sair quase fugida daquele pequeno fim de mundo. Olhou ao redor e o lugarejo ainda era tristemente o mesmo; apenas as casas do entorno estavam mais derruídas.

Talvez nem fosse vingança o que desejasse, pensou ela ainda outra vez, enquanto atravessava a rua em direção à praça central. Mas queria ao menos conversar com Ernesto, saber por que ele havia feito aquilo, porque jogara na lama o seu nome – e aí, sim, talvez vingar-se. Mas não sabia como. E primeiro precisava encontrar aquele canalha.

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Oferenda por Henrique Schneider

por Henrique Schneider

Eu queria te trazer o mundo – mas não é o que tenho e nem o que queres. Quem sabe então um campo inteiro de rosas não colhidas, mas onde os meus braços para abraçá-lo? Então a maciez da relva coberta de orvalho, mas quebraram-se os cântaros de recolhê-la. Ou o conforto ensolarado de um domingo de inverno – e, no entanto, me faltam dedos para colher o sol. Também poderia trazer-te uma pedra cheia e toda vestida de ouros e diamantes, mas nestas mãos que te estendo só cabem os cascalhinhos pequenos de minha vida vagamunda. Ou o brilho refletido das estrelas no lago, apanhadas no batel da noite, mas e se os meus olhos são feitos de dia? leia mais »




Mosaico

por Henrique Schneider

Quando Paulo viu o envelope na caixa de correio pela manhã, Juliana teve o descortino de saber e pensar, meu Deus, Maria Lucia, veja só, já são vinte e cinco anos de formatura, enquanto Luiz Fernando pegou o convite pensando que vinte e cinco anos estão sempre começando. Ronaldo entrou em casa com o convite e depositou-o cuidadosamente na mesa do café da manhã, tantas lembranças redivivas num repente, Teresa pensou, enquanto já começava a se emocionar só ao olhar aquele papel impresso, porque tinham sido tempos tão bons, comentou João Carlos. Quando terminou a xícara de café, já levando os filhos à escola, Felipe beijou a mulher e Antonio disse que não perderia aquela festa por nada. Ver os amigos, pensou Gabriela, enquanto chegava no escritório, rever aqueles a quem nunca mais havia visto, imaginou Ana Carolina ao tempo em que abria as janelas claras da escola. leia mais »




Rosaura

por Henrique Schneider

Estava tão bonita aquela manhã de domingo, tão ensolarada em suas horas tranquilas, que Romeu interrompeu a caminhada distraída e sorriu ao chamado da cigana.

“Vem cá, moço lindo. Vem ler a sorte.”

Ele estendeu a mão à mulher, bem humorado, e naquele momento pareceu esquecer-se dos seus medos de infância, daquelas mulheres com dente de ouro e jóias pesadas, que vendiam bacias e, em sua imaginação de criança, roubavam crianças de suas casas. Talvez porque fosse manhã de domingo – o mundo parece melhor nestes dias.

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Os olhos

por Henrique Schneider

Era inverno e eu dormia tranqüilo quando os cães começaram a latir. Olhei o despertador e era uma e meia da madrugada. Dei a mim mesmo o tempo dos cachorros pararem, certo de que isso aconteceria logo, mas não: os ladridos continuavam, mais e mais – diferentes, assustados. Esperei um tempo e gritei aos cães que parassem, mas eles apenas estancaram por um segundo o barulho, subitamente assustados pelo grito mal humorado justamente de quem esperavam auxílio, e depois recomeçaram sua algaravia.

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Escolher o sorriso

por Henrique Schneider

A molecada é toda uma festa móvel andando pela rua, repassando aos ares o alarido feliz dos seus onze anos, enquanto voltam da escola carregando livros e bugigangas várias. Rodrigo talvez seja o mais animado, porque hoje Rebeca está junto com a turma e é necessário impressioná-la – quando forem mais velhos, ele tem certeza, irá casar-se com ela. Meia dúzia de garotos e garotas, cuja alegria vale por uma centena. Infância é o nome deste barulho.

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A história

por Henrique Schneider

Sentada à minha frente no banco da Estação Rodoviária, a mulher parece não perceber o desconforto deste assento sem encosto, destinado a esperas curtas e despedidas. Terá mais de sessenta anos, com certeza, e a sua figura não parece a de alguém que teve boas sortes na vida. Nos cabelos meio desgrenhados, tem presa uma flor de plástico; as roupas que veste parecem feitas para doidas personagens de novela – o vestido largo e sem cor, sapatos planos e desprovidos de graça, um lenço vermelho e verde envolvendo o pescoço mal cuidado. Mas não é a isso que me atento, agora: o que me chama a atenção é o pequeno ramalhete de flores meio amassadas que ela carrega em seu colo como se fossem o que há de mais valioso em sua vida. Meia dúzia de flores simples e campestres, envoltas num papel celofane amarelado e presas por um laço de fita cor-de- rosa.

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