Menos hoje

por Henrique Schneider

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Susana sempre detestou passar em frente à janela da casa vizinha.
Tudo por causa daquele assanhado. O homem está sempre na JANELA, à hora da manhã em que ela passa em direção ao trabalho -  mais apressada naquele breve trecho do que em todo o resto do caminho – e, ainda que não diga nada, seu olhar libidinoso basta para assustá-la. É um olhar que parece persegui-la, que contempla os detalhes de seus passos, as pernas quando chegam e quando já se vão, que acompanha  o movimento doce dos músculos. É um olhar que adivinha, como se fosse um raio X,     que parece destecer os fios da blusa de lã que ela veste, abrir o zíper de seu vestido, descalçar as sandálias que ela VESTE nos dias mais quentes do verão.
Olhar desse jeito para uma mulher casada, pensa ela. O que é que este desavergonhado pensa que é?
Não sabe o nome do vizinho, se é casado ou solteiro (nunca viu mulher nenhuma a acompanhá-lo na janela). Nem quer saber: só o que sabe é do olhar desrespeitoso, invasivo, cheio de uma lascívia que se renova todos os dias, um olhar que lembra à Susana sua própria condição de mulher. E ela passa nervosa em frente ao homem,  sem olhá-lo, suando um pouco. Tenta fingir que ele não está ali enquanto torce para que ele não perceba o seu tremor.
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Roubada

por Henrique Schneider

Foi o Cibalena que me botou nesta roubada. Foi ele que me disse, na boa, compadre, pode ir lá e meter a casa porque a velha mora sozinha e a vizinhança toda trabalha. Vai que é moleza, ele disse. Aí eu fui mesmo, porque, meu, presente a gente nunca recusa. E aí, seguinte, nunca foi tão fácil entrar numa casa. Foi dar uma torcida na fechadura, um peteleco de nada, e a porta tava aberta. Entrei e o maior silêncio, eu só cuidando se a velha não aparecia, mas nada. Examinei o lance, dei uma escutada pra ver se tava limpo e aí comecei a recolher os bagulhos. Cara, a casa cheia de bagulho bom, a velha cheia da grana, como o Cibalena mesmo tinha me dado o toque. Peguei a sacola que eu tinha levado junto, porque sempre é bom andar preparado, e fui metendo as paradas lá dentro: relógio, talher, colar, anel, roupa, a grana que eu encontrei numa gaveta, cd player, dvd – a velha ligadona nestes baratos, meu. Até um quadrinho que tava pendurado na parede eu toquei dentro da sacola, vai que é de algum cara famoso?

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Dia internacional da mulher

por Henrique Schneider

“Prezadas colaboradoras:
Através do presente, a direção deseja parabenizar as distintas e operosas funcionárias desta fábrica pela passagem recente do Dia Internacional da Mulher, esperando que tenham dele usufruído na companhia de seus esposos e companheiros ou, ainda, no seio amoroso de suas famílias. Trata-se de uma dia muito especial para a corporação, tendo em vista que nele se homenageia esta que, como mãe, mulher e trabalhadora,  é uma das construtoras da história mais recente  – e também de nossa moderna empresa.

Infelizmente, no entanto, a direção sente-se obrigada a responder negativamente ao pleito de equiparação salarial aos homens. Ainda que se reconheça a importância do pedido, não há, no momento, a possibilidade das laboriosas moças que labutam em nossa fábrica ganharem os mesmos salários que os homens. Eventual equiparação  esbarra na impossibilidade jurídica, tendo em vista que os homens, então, poderiam sentir-se como se estivessem ganhando menos do que ganhavam anteriormente – e a redução salarial é proibida por lei. Além disso, haveria um óbvio constrangimento  masculino, podendo as gentis trabalhadoras desta empresa entender a razão da negativa.

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Dói quando pensa nela

por Henrique Schneider

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Mas é uma dor boa, sana – e talvez por isso não queira parar de pensar. Passaram os dias de perder a fome, de ficar olhando o longe como se nada mais houvesse, de esquecer as respostas que ainda há pouco sabia inteiras – estes tempos de aflitude passaram. Agora, o que fica é esta pequena agonia alegre de respirar e lembrar seu nome, de acordar e tê-la como primeiro pensamento em cada manhã, de mal saber o que fazer nas horas em que escuta sua voz,  de tremer sem sentir sempre que ela está próxima  – é ruim, isso? Ele sabe que é, mas também que não.
Ela apareceu em sua vida numa hora de erros, quando ambos já estavam ao lado de alguém que amavam, e foi um atropelo:  porque é sempre possível amar alguém e apaixonar-se por outra pessoa. Ele sorri enquanto pensa nisso, o copo de uísque sem gelo na mão e Nina Simone cantando “Solitude” como se fosse coincidência. Então. Apareceu sem verdadeiramente aparecer e, na mesma hora, ele soube que ela poderia ser a mulher de sua vida. Sabe-se lá por que razões ele teve esta certeza – a intensidade da risada, o olhar dela dizendo sempre mais que palavras, um gesto inexato, a rouquidão escondida na voz, o mau humor cheio de delícias, o dia em que a viu caminhando tranqüila em sua direção, tudo -, mas ninguém precisa de razões para suas escolhas. Ele soube, e era isso.
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A Casa

REVISTA E  – Nº 29
David Oscar Vaz

“Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro.”
(A Casa de Asterion, Jorge Luis Borges)

A noite estava quente apesar da chuva da tarde. O homem penetrou no jardim da casa, sentou-se ao lado da cerca viva lateral e fez de um grande tronco o escudo que o ocultava dos olhos da rua. Nessa posição, seus pés se empapavam numa poça amarela. Os outros chegariam logo, pensou não sem alguma resignação e algum medo. Mais uma vez, mas agora em condições menos tranqüilas, ele veio ver a casa. Seus olhos buscaram a porta lateral. Devia estar aberta, e isso era mais que um pressentimento. A casa toda penetrava-lhe pelos olhos. A vista foi escalando os andares superiores, os pavimentos haviam de ser três ou quatro irregulares, as janelas tinham formas ogivais e as paredes, silenciosas e cinzentas. A falta da luz do sol e o medo desvaneciam-na.

Euclides aspirou com dificuldade o ar úmido da noite e, como se esquecesse de sua condição de fugitivo, fechou os olhos.

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A caroneira

por Henrique Schneider

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Ele dirigia o carro pela avenida larga, voltando para casa e prestando pouca atenção às notícias que o rádio lhe trazia naquele começo escuro da noite, quando o surpreendeu a mulher, parada na esquina, pedindo carona.
O sinal fechado, ela acercou-se à janela do motorista e perguntou até onde ele seguiria.
“É bem no meu caminho.” – comentou a mulher à resposta dele. E, sem esperar por licença, fez a volta pela frente do carro e sentou-se na poltrona do caroneiro. Ele deixou; não era problema dar esta carona.
A mulher entrou no automóvel e o motorista estranhou o seu silêncio reservado, a distanciada altivez com que se deixava levar pelo caminho, sentada como se não estivesse ali.
E os olhos da mulher, percebeu o homem.
Uns olhos cinzas, pétreos, sem brilho.
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Enganos

por Henrique Schneider

O telefone tocou e Heitor atendeu sem maior vontade.

“Eu gostaria de falar com a dona Soraia, por favor.” – pediu a voz do outro lado da linha. Uma voz de homem – jovem, educada.

“Não tem nenhuma Soraia por aqui.” – respondeu Heitor, desligando antes que o outro pudesse dizer qualquer coisa.

Não demorou dois minutos e o telefone tocou novamente.

“Bom dia. Eu gostaria de falar com a dona Soraia.” – a mesma voz, a mesma educação gentil.

“Ôrra, meu! Eu já disse que aqui não tem nenhuma Soraia!”

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