O sol frio

por Henrique Schneider

Ramiro olha ao redor e tudo o que enxerga é esta imensidão verde e plana, este deserto de campo cortado pela estrada fina e esburacada onde, desde que chegou, ainda não passou nenhum carro. Está parado há quase meia hora, dentro do seu próprio automóvel, escutando música e apenas esperando por Elisa, que já deve estar chegando. Ele olha o relógio, um pouco preocupado com a solidão pesada que o rodeia, e pensa que poderia estar com medo se o dia não estivesse tão claro, se já fosse noite – estas noites de lua quente que tanto o atormentam. Ela está uns minutos atrasada, mas não é isso o que preocupa Ramiro. Estacionou em frente ao posto de gasolina abandonado, conforme haviam combinado, e enquanto observa a ferrugem que carcome há anos a estrutura metálica e escuta o rangido das placas balançadas pelo vento, tenta adivinhar porque Elisa teria proposto que se encontrassem assim tão longe e tão logo. Aquele posto abandonado está há mais de cinqüenta quilômetros da cidade – a cidade onde ambos moram e se encontram furtivamente às tardes e às manhãs, nos desvãos dos quartos clandestinos das pensões e motéis, quando o marido de Elisa está viajando ou presidindo as tantas reuniões nas quais aumenta a cada dia a sua fortuna.

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As cotas

por Henrique Schneider

Ele é um dos noventa e três novos juízes que, há pouco mais de um mês, assumiram seus cargos numa solenidade no Tribunal de Justiça. Olha a foto oficial da cerimônia, agora: todos reunidos na escada larga do tribunal, uniformizados em seus ternos discretos e tailleurs elegantes, em seus sorrisos sérios e alegrias circunspectas. Noventa e três pessoas que, a partir de então, colocam em suas vidas as vidas de outras pessoas e que, ao mesmo tempo em que olham para a foto, olham para o seu próprio futuro com certezas e confiança.

Mas não é esta confiança hirta e coletiva que lhe chama a atenção na fotografia.

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As Escolhas

por Henrique Schneider

Carol recém completou dezesseis anos e escolheu apaixonar-se por Leocádio, que vai fazer vinte e cinco daqui a dois meses. Ele sequer sabe muito bem que Carol existe, e como não gosta muito do próprio nome e não há muito o que fazer quanto a isso, escolheu para si um apelido e pede para que todos o chamem de Lelê. À Carol pouco importa como chamá-lo, o que interessa é decidir se ficará investindo nesta paixão de nome estranho e antigo ou se irá se dignar a prestar alguma atenção nas indiretas desajeitadas de Eduardo, que não tem apelido e há anos parece amá-la num silêncio tímido que começou nos primeiros anos da escola. leia mais »




Vestido de noiva

por Henrique Schneider

O motivo pouco importa, mas o fato é que Zelinda estava mexendo em armários no sótão, há muito imexidos, quando encontrou, fechada há anos, a caixa de papelão em que estava guardado o seu vestido de noiva. Envolta em fita crepe, a caixinha escondida em desimportâncias, como se não guardasse qualquer memória. Mas agora, ali, era um mar de lembranças que, de repente, lhe aquentavam o coração envelhecido.

Zelinda fechou os olhos e lembrou do dia, trinta anos atrás.

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Carta de amor

por Henrique Schneider

Eram duas e meia da tarde e Floro Guterres bebia outro conhaque, sozinho no boteco de sempre, quando o homem se aproximou. Tinha o ar tímido, humilde, um pouco confrangido.

“O senhor que é o Poeta?” – perguntou o desconhecido.

Floro lembrou dos quatro livros de poesia publicados, a maioria ainda empilhada em caixas pobres no seu quitinete, mas que lhe concediam este título quase honroso aos olhos mais humildes, e respondeu que sim.

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Os mesmos passos

por Henrique Schneider

Eu saíra do banco onde fora acompanhar de perto as más notícias sobre o meu saldo bancário e andava pela rua com aquela pressa sem nome que nos acomete quando caminhamos pelas grandes cidades, quando percebi o casal, parados ambos em frente à vitrine de uma livraria. Ela teria os seus oitenta anos, a pele clara, belos e suaves cabelos brancos; ele era certamente alguns anos mais velho.

E estavam de mãos dadas.

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Nós precisamos conversar

por Henrique Schneider

Nós precisamos conversar, disse ela (pediu ela). Mas as minhas reuniões, o trabalho todo e tanto, as horas de relatórios para ontem, o escritório, a fábrica, o café da manhã com olhos na empresa, a tensão com os chefes, a tensão com os subordinados, a tensão comigo, conversaremos amanhã.

Nós precisamos conversar, disse ela (repetiu ela). Mas a cotação do dólar, a variação do mercado, a irritação do mercado, o mercado de capitais, a bolsa de valores, os meus investimentos, o CDB, a taxa de juros e a correção monetária, o limite do cheque especial, o gerente do banco que ligou na semana passada e ficou uma hora no telefone, conversaremos sim, sim, mas conversaremos amanhã.

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Por onde andará Ricardo? – Henrique Schneider

por Henrique Schneider

Olha, Dirceu, foi tudo tão rápido quanto impressionante, e a verdade é que o homem estava tão feliz que eu mesmo fiquei um pouco emocionado. O que eu sei é que eu acabara de estacionar o carro no pátio do supermercado e de repente vinha aquele abraço forte e incontido correndo em minha direção, gritando “Ricardo, Ricardo!”, como se o nome em si já fosse uma alegria. O homem me abraçou longamente no meio do estacionamento, enquanto atinava apenas em gritar o quanto estava alegre em me ver depois de tantos anos, e em sua voz parecia mesmo se escutar esta saudade. Ele então me largou por um instante, mirou-me com os olhos brilhantes de emoção, e depois – como se não soubesse bem o que fazer com tanta felicidade – me abraçou novamente. Há quanto tempo, meu amigo, há quanto tempo, ele repetia. leia mais »




A pergunta a não ser feita

por Henrique Schneider

Foi na metade do ano passado. Genaro sonhou que morria ao mesmo tempo de várias formas e acordou empapado num suor frio e mau, afogando-se nos lençóis e perguntando a si mesmo de que modo afinal iria morrer.

Desde aquela manhã triste, passou a ser esta a sua preocupação maior: saber de que modo morreria. Não adiantou a esposa tentar livrá-lo deste desatino que começou a consumi-lo já naquela mesma manhã, explicando – como se fosse necessário – que as pessoas em geral não têm a menor idéia de como serão suas mortes, e que esta ignorância, mais do que não fazer qualquer mal, faz bem às vidas das gentes. Genaro não quis escutar qualquer explicação; talvez eu não seja uma pessoa comum, respondeu, e preciso saber como vou morrer.

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Lady Madonna

por Henrique Schneider

Os homens do marketing da gravadora entraram na reunião decididos a sair de lá com o perfil da nova estrela musical da companhia. Precisavam de um sucesso esplendoroso, algo mega-mega-mega, para faturar milhões de bilhões em todas as moedas.

“Tem que ser muito bonita.” – disse um dos diretores, e todos os outros concordaram.

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Fim de noite

por Henrique Schneider

Ela deve ter uns cinqüenta e vários anos, beirando os sessenta; ele terá um pouco mais. E a vida, logo se vê, não foi generosa com nenhum dos dois: a mulher é um pobre fiapo de cabelos mal pintados e o homem parece mal acomodar-se nuns sapatos brancos que certamente o acompanham há décadas. Mas nenhum peso da história os move enquanto entram juntos na lanchonete ao lado do Clube da Grande Dança, onde bailaram a noite toda como se já se conhecessem há muito tempo. Parece que ainda dançam quando entram na lancheria, reluzentes, ele cumprindo o bom rito de conduzi-la com a leveza do toque da mão nas costas, ela desacostumada a aquele cavalheiresco puxar de cadeiras de quem não se senta enquanto a dama não está acomodada.

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