por Walcyr Carrasco
Veja São Paulo
Meu primeiro celular parecia um tijolo. Difícil de carregar. Pior ainda, de funcionar. A linha vivia com sinal de ocupado. Mesmo assim era um luxo! Lembro quando liguei pela primeira vez para minha amiga Vera:
— Estou em Brasília, no meu celular — contei.
— Também quero um! — ela gritou, entusiasmada.
De novidade, tornou-se essencial. Agora esses aparelhos são mínimos, fotografam, tocam músicas e acessam a internet. Viver sem um é estar desconectado. No fim do mês vem a conta. Sempre me assusto! As operadoras oferecem pacotes. E de pacote em pacote às vezes eu me sinto embrulhado! Compro por puro entusiasmo uma série de serviços que não uso depois! Um amigo meu tem três celulares. Durante um jantar, falava em todos ao mesmo tempo, enquanto eu tentava conversar. Imagino a conta!
por Walcyr Carrasco
Veja São Paulo | 24/02/2010
Minhas aulas de ioga são acompanhadas por dois alunos: eu e meu gato Merlin. Basta Guilherme, meu atual professor, entrar no elevador no térreo para Merlin esticar o rabo e arquear o dorso. Sobe as escadas e é o primeiro a estender-se no tapetinho, ronronando. Tento realizar as posturas: giro a cabeça, estico uma perna, estendo o braço, me contorço. E gemo! Merlin inventa suas próprias posições. Deita de barriga para cima, ergue as patinhas, torce o corpo. Dá um show. Como diz o professor, “gatos já nascem mestres de ioga”, mas normalmente Merlin é muito arisco. Não faz charme para vi sitas nem deixa ninguém pegá-lo. É como se Merlin quisesse compartilhar da harmonia que a ioga me proporciona. Mesmo quando medito sozinho em minha poltrona, ele se aproxima e fica se entrelaçando às minhas pernas. É um adepto do alto astral! Shiva, minha gata, tem comportamento semelhante, mas em situações opostas. Passa os dias dormindo. Não é muito “dada”, como costumam dizer. Basta eu me refugiar no quarto chateado ou um pouco deprimido que ela aparece, solidária. Deita-se o mais próximo possível e me encara com seus olhos verdes, como se dissesse: “Estou tomando conta de você!”. Fica todo o tempo perto de mim, até eu me sentir melhor. Nenhuma palavra precisa ser dita. Ela sabe quando é hora de me fazer companhia.
por Walcyr Carrasco
Veja São Paulo – 10/2/2010
No Carnaval, as pessoas são acometidas pela febre de viajar, pular, namorar e ser feliz a todo custo. Há um ano, seis amigos sem muita grana alugaram, por indicação, uma quitinete em Copa cabana. Pagamento adiantado. Quando chegaram, já havia três pessoas instaladas.
— Quem são vocês? — admirou-se Sérgio, o líder da turma.
— Alugamos o apartamento! — respondeu um deles.
Começou a discussão. Surpresa: mais inquilinos chegaram! No fim, somaram catorze. Todos haviam pago antecipadamente. Tentaram encontrar o locador. Impossível. Ninguém aceitou sair.
—Vamos nos ajeitar! — propôs um.
Os outros concordaram. O resto da temporada dá para imaginar: catorze em uma quitinete. Quem chegava primeiro pegava os beliches ou o sofá. Os outros acabavam no chão. Sardinhas na lata iriam se sentir mais folgadas!
E a história do casal que levou os pais da mulher para uma pousada em Paraty?
— Neste ano vamos descansar! Meus sogros já estão velhinhos, precisam de vida calma! — garantiu o marido. Após horas de estrada — quem não conhece o martírio dos feriados? — chegaram.
por Walcyr Carrasco
Veja São Paulo – 27/1/2010
Quando crio, mergulho profundamente na vida dos personagens. Ao terminar um livro ou, no caso, uma novela como a recente Caras & Bocas, apresentada pela TV Globo, arranco os cabelos, fico com mágoa da vida. Parece coisa de doido. Mas não é. Durante a criação, os personagens “ganham” vida. Tornam- se pessoas com quem convivo diariamente. Muitas vezes, até, escolho um destino, mas o personagem se revolta. A trama fica artificial e mudo tudo! Entendo que “ele” jamais faria isso ou aquilo. Óbvio que cada um tem um pedacinho de mim. Mas, quanto mais entrego, mais independência eles conquistam. Ainda mais no caso da telenovela, pois diariamente assisto à interpretação de um ator ou atriz que também coloca algo de si. Todos se transformam — até mesmo as vilãs — em amigos próximos! E, de um dia para o outro, boto a palavra FIM. Tudo termina! Digo adeus a quarenta, cinquenta personagens com quem convivia diariamente. Minha amiga Glória Perez certa vez declarou que é como “estar no naufrágio do Titanic e ser a única pessoa a se salvar”.
Com os livros acontece a mesma coisa. A vida de um personagem é paralisada, muitas vezes diante de uma decisão crucial. Em um dos meus títulos, A Palavra Não Dita, no último capítulo uma garota finalmente descobre quem é seu pai. E depois? Eles se deram bem? Ou nunca mais se viram? Bem fez Monteiro Lobato, que escreveu toda a coleção do Picapau Amarelo com a mesma genial Emília!
A vida de um escritor não é tão glamourosa como se imagina. Durante boa parte do tempo sou convidado para festas, estreias e eventos. Mas só vou raramente. Escrever é um trabalho solitário, que exige concentração, disciplina, vida pacata. Ainda mais durante uma novela, em que se desenvolvem de vinte a trinta páginas de roteiro por dia, dependendo do horário! Mas também nada é mais fascinante do que assistir a um capítulo da própria obra. É muito melhor que vida social! Já vi a escritora Maria Adelaide Amaral sair discretamente de um jantar para não perder sua minissérie. Eu faria o mesmo. Durante uma novela, passo boa parte do tempo me indispondo com as pessoas, que tentam me convencer a “dar só uma passadinha”, “gravar e assistir de pois”.
Às vezes me entrego demais à história. Tenho uma característica próxima da loucura absoluta. Se estou escrevendo cenas dramáticas, eu me comporto mais dramaticamente ainda. Sou capaz de me sentir rejeitado porque o garçom esqueceu de botar o saleiro na mesa! Ao contrário, se escrevo humor, faço piada com todo mundo. Pior: se tramo crimes, adquiro um olhar meio torto. Na rua, viro para trás constantemente para ver se alguém me segue!
Às vezes lembro de novelas mais antigas. Sinto saudade de uma personagem como de uma amiga que viajou para outro país. Dá vontade de mandar carta ou e-mail. Outro dia, liguei para o Otaviano Costa, da recém-terminada Caras & Bocas.
— Sinto saudade do seu personagem, Adenor — confessei. — Morria de rir com ele.
— Eu também — suspirou Otaviano. — Vamos fazer o seguinte: a gente sai para jantar, mas eu finjo que sou o Adenor. Convidamos outros atores e cada um vai com seu personagem. A gente cria uma realidade virtual!
Quase topei.
É, dá uma tremenda tristeza. Mas um bichinho já está me mordendo. Quero escrever novamente, seja o que for: livro, peça de teatro, novela, série. Reviver o ciclo de emoções, alegrias e despedidas. E misturar novamente as emoções com os personagens e tramas que sempre vão fazer parte da minha vida!
Walcyr Carrasco
Veja São Paulo – 13/1/2010
Todo início de ano gosto de olhar a vida como os antigos faziam. Em tempos distantes, até mesmo nas civilizações perdidas, a sociedade era fundamentalmente agrária. Não é preciso ser adepto da astrologia para se fascinar com a descrição mais tradicional da passagem dos signos, refletindo os ciclos da terra camponesa. Áries, o primeiro do zodíaco, representa o solo pronto para ser trabalhado. Touro, o momento em que é preparado para o cultivo (no passado, o touro puxava o arado!). E assim por diante, com as espigas douradas do trigo explodindo ao sol em Leão. Faço todas as simpatias possíveis no réveillon, invento promessas de ano novo. No fundo, é um jeito de agir idêntico ao de algum antepassado. Em janeiro a vida se assemelha à terra pronta para ser trabalhada, semeada. Subitamente minhas esperanças se confundem com as de algum outro homem de milhares de anos atrás, diante da passagem do tempo. No passado, as pessoas entendiam esses ritmos. Minhas avós, imigrantes espanholas, depois de anos calejando as mãos na roça, contavam com cuidar dos netos na velhice e, por sua vez, ser cuidadas pelos filhos. leia mais »
do Blog de Luís Antônio Giron
sábado, 28 de novembro de 2009
Não costumo escrever quando estou tomado de emoção. Em geral, o que faço nessas condições sai ruim. Tenho a necessidade de medir, de meditar sobre o fato que vivenciei. Ficar à distância de mim mesmo sempre foi um método preventivo eficaz. Mas agora vou me dar ao luxo de me comover, e suportar as conseqüências do ato.
No sábado, fomos as minhas filhas, minha mulher e eu, passear no centro da cidade. Visitamos casas de instrumentos musicais e de chapéus perto da rua Casper Libero. Atravessamos o viaduto Santa Ifigênia, imaginando o que os suicidas pioneiros não pensaram quando se lançaram lá de cima. Ao chegar ao mosteiro de São Bento, topamos com um homem de cerca de 40 anos, gordo, barbado, vestido festivamente e com um leve sorriso a fazer gestos teatrais; “Venham ver a mágica! Venham ver a mágica!, convidava. “Cheguem aqui, por favor!” Ele mostrou os truques de sempre: o lenço vermelho que desaparece, a adivinhação do baralho e a caneta que se desmaterializa. O mágico, na verdade, parecia interessado em vender o segredo dos truques. Um mágico que mendigava uns trocados para contar os segredos, não aquele astro que cobra entrada para o espetáculo. O mágico sorria para atrair uma freguesia improvável, que nesta altura do século teria curiosidade infantil de conhecer truques tantas vezes repisados e desvelados. Talvez um suicida em potencial do viaduto, que tenha se valido do último recurso de que dispunha para achar um sentido na vida.
do Blog de Luís Antônio Giron
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
É a carioca mais falada em São Paulo. Não passa um dia sem que eu ouça o nome de Capitu. A moça alta, de rosto quadrado, nariz afilado, cabelos escuros e olhos grandes, claros e arrevezados parece viva, e não feita de letras. Ela se estabeleceu de tal modo na imaginação das pessoas, que chego a pensar que a personagem está ofuscando o seu criador, Machado de Assis. Agora a intrigante personagem dá nome a uma minissérie de televisão. Era o que faltava para virar celebridade.
Assim como o Sherlock Holmes enterrou seu criador, Conan Doyle, Capitu devora Machado – e no ano de celebração do centenário de sua morte. Capitolina pulsa e fascina. E Machado? Apesar de venerado, sua imagem pública não passa de uma escultura em bronze miúda na porta do prédio da Academia Brasileira de Letras. Agora ele a estátua é lembrada porque deu à luz a femme fatale brasileira.