Cláudia Matarazzo: “Etiqueta são regras que educam”
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Publicação: 19 de Abril de 2009 às 00:00
Rodrigo Sena”A etiqueta é a ferramenta que faz com que a pessoa seja bem educada”
A etiqueta não é frescura, mas há pessoas que fazem etiqueta com muita frescura. Essa é a primeira conclusão que se chega após ouvir a jornalista Cláudia Matarazzo, autora de vários livros sobre etiqueta, falar sobre o assunto. Para ela, etiqueta é um diferencial hoje dos “craques”.
“Porque hoje todo mundo tem que ser craque, tem que ter pós-graduação, MBA, saber informática, falar línguas. O que vai diferenciar dois craques é, exatamente, essa ferramenta”, comenta a jornalista, que esteve em Natal para ministrar palestra para o CDL Jovem.
Para Matarazzo, um dos lugares mais difíceis de se usar bem a etiqueta é quando está em outra cultura. E sobre isso ela cita o exemplo de um conhecido que ao comparecer a um jantar de negócios no Japão levou flores para presentear o casal amigo. Resultado: “um grande pecado”, já que naquele país presentear com flores representa um assédio. Autora do livro “Etiqueta sem frescura”, Cláudia Matarazzo não poupa críticas para o “invencionismo” que se tem feito em etiquetas e, principalmente, em formatar protocolos para todos os eventos. “Isso me irrita um pouco. Acho que as relações têm de ser mais espontâneas, menos terceirizadas. Você não pode terceirizar tudo. Você tem que aprender a organizar uma festa na sua casa, não tem que terceirizar uma festa pequena”, analisa. E ainda nessa temática ela alerta que “casamento” não é lugar para fazer negócio, portanto, uma festa como essa com mais de 500 convidados é invencionismo.
“Casamento é festa íntima, não é uma festa para mil pessoas. Hoje ninguém pensa em casamento para menos de 500 pessoas. Acho isso um absurdo. No fundo casamento é para amigos e família”, completa.
Nossa convidada de hoje do 3 por 4 é uma jornalista simpática no contato, fina no trato, de fala tranquila. Com vocês, Cláudia Matarazzo.
Etiqueta é frescura?
Etiqueta não é frescura. Hoje etiqueta é uma ferramenta de trabalho, um diferencial de qualquer profissional. E por que eu falo diferencial? Porque hoje todo mundo tem que ser craque, tem que ter pós-graduação, MBA, saber informática, falar línguas. O que vai diferenciar dois craques é, exatamente, essa ferramenta. Se você souber ou não transitar com mais elegância nas diversas tribos, fazer com que as pessoas queiram voltar a encontrar determinado fornecedor, determinado cliente porque tem a percepção de um momento agradável, é uma ferramenta. Hoje é um diferencial.
Qual o limite que a senhora encontra entre etiqueta e educação?
A etiqueta é a ferramenta que faz com que a pessoa seja bem educada. Etiqueta é o conjunto de regras que educam.
A senhora consegue diferenciar uma etiqueta que é feita com frescura de uma etiqueta sem frescura?
Sim. A etiqueta com frescura não tem embasamento. É gente que inventa coisas. Promotores de eventos tem muito isso. Eles inventam determinadas coisas só para ser novidade. Mas isso não tem embasamento nenhum. Cerimonial de casamento aí resolvem que a noiva tem que se trocar cinco vezes. Mas por que a noiva tem que se trocar cinco vezes? Não tem nenhum embasamento isso. No máximo uma (a noiva se trocar), que é se ele for para igreja e para uma balada, e isso mesmo ela pode até adaptar a roupa da igreja. Então não tem essa coisa de que em festa de 15 anos que a menina fica com três roupas. Para que três? É uma só. Não tem porque isso. Ainda mais hoje que é tudo mais simples, objetivo. A menina entra com uma roupa e será com essa que ela ficará até o final da festa. Isso é frescura, isso é invencionismo. A regra, em geral, é embasada em motivo prático. Por que a faca é do lado direito? Porque em geral a maior parte das pessoas corta com a mão direita. Vai pegar e já está na mão. Esse é o tipo de regra muito prática.
Educação é tratada na escola. E etiqueta?
As crianças deveriam ter aula de etiqueta na escola porque não tem mais esse conhecimento em casa. Até porque em casa as pessoas pararam de ensinar esse tipo de coisa aos filhos. Há 30 ou 40 anos com a revolução dos costumes acharam que isso não era mais importante. O que ocorreu foi que tudo que veio depois da revolução dos costumes cresceu sem esse conhecimento e percebeu na década de 80 e 90 que era necessário. Entravam no mercado de trabalho e diziam que ninguém havia ensinado em casa como era almoço de negócios, o que é a denominação de um traje quando vem um convite, quando você viaja com o chefe. Aí houve uma procura galopante da procura de livros de etiqueta, palestras de etiqueta. Isso começou a ocorrer a partir dos anos 80 para os anos 90. Por causa disso: você tinha uma geração de 20 e poucos anos e nunca tinha tido esse conhecimento.
Existe moda na etiqueta?
Não existe moda. O que existe é que quando os costumes mudam muito a regra da etiqueta muda um pouquinho também. Por exemplo, até surgiu o fax era muito feio você convidar alguém por fax, diziam que tinha que ser por telefone, convite impresso. Quando chegou o e-mail hoje todo mundo convida por e-mail porque mudou o costume em função de nova tecnologia.
A senhora falou de e-mail, a Internet é uma “faca de dois gumes” para etiqueta?
É uma faca de dois gumes, mas não pela ferramenta em si, mas pela ansiedade com que a gente está administrando a ferramenta. A gente acha que só porque faz as coisas mais rápido então tem que usar tudo Internet e fazer por Internet. Não é bem assim. É uma faca de dois gumes, sem dúvida, tem que usar a adequar as circunstâncias. Não é só porque é rápido que é bom. As vezes é rápido, mas não é adequado.
O que a senhora diria do e-mail?
O e-mail é ótimo, mas não é adequado para tratar assunto delicado, assunto longo. Aí é melhor marcar reunião. Não é bom para fazer negociação, onde você deve sentir o humor do outro, sentir o humor do outro melhor. Tem que adequar.
E o celular?
O celular é um grande vilão, sem dúvida nenhuma. Porque a gente não sabe usar. A gente não sabe desligar o celular, não sabe a hora de desligar, acha que deve estar o tempo todo com o celular ligado. Aí ele toca, a gente atende, interrompe, deixa o cliente esperando. A gente precisa aprender a desligar o telefone celular. No dia que a gente aprender a fazer isso aí chegou ao equilíbrio, da facilidade que ele traz e do que ele não pode trazer de nocivo para nossa vida. Entre deixar no silencioso e desligar, desliga. Tocando no silencioso você fica aflito, vai querer olhar quem é. Tem que desligar, tem que segurar a ansiedade. Você não pode ficar com sua atenção dividida. E essa atenção dividida é uma doença do mundo. As crianças fazem lição com o computador ligado. Está todo mundo com déficit de atenção. É um fato.
O perfil do brasileiro contribui para que não se tenha etiqueta? Esse “jeitinho brasileiro” é nocivo?
Acho que não. Ao contrário, o brasileiro do jeitinho é bom em termos de cortesia, porque sempre vai dar um jeitinho; se por um lado ele quer quebrar a regra, por outro quer ajeitar as coisas. Acho que o brasileiro é dos povos mais cortezes, mas gentis. Ele quer amparar, mostrar, coloca para dentro de casa. O nosso perfil é muito favorável a etiqueta, aliado ao nosso jeitinho, a nossa espontaneidade, ao nosso jogo de cintura, se a gente tiver o mínimo de preparo aí a gente deita e rola com a ferramenta melhor do que qualquer um.
Onde é mais difícil ter etiqueta?
Em culturas que você não conhece. Se é uma cultura muito diferente da sua você tem que estar mais ligada. Eu soube de um amigo do amigo que foi ao Japão a negócios. Foi jantar com o cliente e a mulher e levou flores. E isso foi um desastre. Era a única coisa que ele não poderia ter feito. No Japão você não manda flores, você não dá flores. Isso é assédio pesado lá no Japão. Diz que fechou o tempo nesse fato. Isso é o desconhecimento da cultura. Claro que ele não era obrigado a saber. Quando você tem um desconhecimento da cultura, seja nacional ou regional, é bom ficar mais ligado.
O que é mais difícil para seguir uma etiqueta?
Você tem que ter pontualidade. Qualquer contexto, qualquer evento, político empresarial, se ocorre qualquer tipo de atraso, desanda o evento. Pontualidade é fator fundamental para seguir a etiqueta. Você não pode deixar ninguém esperando. Se atrasa, o sujeito fica cansado, desanda o evento. É jeca você achar que é importante chegar atrasado. Quem chega atrasado é mal educado.
O que fazer no ato falho?
Tem que lidar com naturalidade. Se for um ato falho grave, tem que passar por cima. Ficar pedindo desculpa é pior porque você eterniza. Se dá para disfarçar e fingir que não aconteceu melhor. Mas se não dá para fingir, tem que pedir desculpa com naturalidade e passar para o próximo assunto. A única coisa que a gente não pode fazer é eternizar essas desculpas, os atos falhos.
Hoje se tem cerimonial para tudo.
Isso me irrita um pouco. Acho que as relações tem que ser mais espontâneas, menos terceirizadas. Você não pode terceirizar tudo. Você tem que aprender a organizar uma festa na sua casa, não tem que terceirizar uma festa pequena. Uma coisa é fazer um casamento enorme. Mas mesmo os casamentos viraram mega evento. Casamento é festa íntima, não é uma festa para mil pessoas. Hoje ninguém pensa em casamento para menos de 500 pessoas. Acho isso um absurdo. No fundo casamento é para amigos e família. Não tem isso de colocar 500 pessoas em um casamento.
Casamento virou palco de negócios?
Isso mesmo. E isso é besta. Não se vai fazer negócios no casamento, não vai ser por isso que a pessoa vai fazer negócio com você, ela vai no seu casamento e ainda sai falando mal.
Como se construir uma networking?
Com atenção, foco e na construção de um relacionamento. Você deve alimentar uma vez por semana, uma vez a cada 15 dias. É preciso cultivar. Netwoking é hábito, tem que ter o hábito de cultivar determinadas pessoas da sua rede de relacionamento.