Comboio com asas

Duarte Miguel Barcelos Mendonça
Fórum Madeirense

Comboio com asas,
organizado por António Fournier
Livro dos 500 Anos evoca o mítico “comboio do Monte”

No passado dia 16 de Dezembro foi lançado no Funchal esta antologia de textos com referências ao antigo comboio de cremalheira que outrora transportou milhares de passageiros desde o Pombal até ao Terreiro da Luta. O local escolhido para a apresentação desta obra foi o que menos se esperaria: uma oficina de automóveis. Mas antes que os leitores se assustem, quiçá pensando que na Madeira as coisas regrediram a tal ponto, convém referir que não foi numa oficina qualquer, mas sim numa escolhida devido ao seu simbolismo. Esta cerimónia decorreu na Oficina do Pombal, no local exacto onde outrora se localizavam as oficinas do “comboio do Monte”, situada junto à antiga estação, actualmente um edifício fechado e semi-abandonado, localizado no princípio do Caminho do Comboio.

Durante cerca de cinquenta anos, balizados entre meados da última década do século XIX e meados dos anos 40 da pretérita centúria, este comboio foi uma referência incontornável da realidade funchalense. Ao longo de todo o tempo em que operou, numa primeira fase indo apenas até ao Monte, e posteriormente até ao Terreiro da Luta, o “comboio do Monte” foi uma oferta ímpar para o turismo que afluía à Madeira. Por essa altura uma das melhores coisas que a nossa ilha tinha para oferecer aos seus visitantes era uma subida no comboio até ao Terreiro da Luta, e depois a descida, de lá de cima até ao Funchal, em “carro de cesto”. Se na subida tinham o privilégio de ver a cidade desenrolar-se ante os seus olhos, na descida experimentavam a vertigem da velocidade que, em poucos minutos, os traziam de volta ao Funchal por uma rua íngreme.

O antigo “comboio do Monte” foi uma referência para os turistas e ainda para muitos madeirenses, sobretudo os mais avançados em idade, que ainda se recordam de o terem visto ou de nele terem viajado. De modo a capitalizar todo o universo de memórias em torno desta antiga locomotiva de cremalheira, a única do seu tipo que existiu nas ilhas do Atlântico, António Fournier, ilustre funchalense radicado em Itália onde se dedica à docência universitária, teve a brilhante ideia de recriar uma viagem neste comboio, e para isso solicitou a 30 pessoas – tantas quantas conduzia a antiga carruagem desta locomotiva – oriundas de várias partes do globo, que escrevessem um texto em que fosse dado um especial ênfase ao “comboio do Monte”. E o resultado final foi este fascinante livro de 237 páginas editado pelo Funchal 500 Anos, sendo o n.º 24 da Colecção patrocinada por esta entidade. A título de curiosidade refira-se que o desenho patente na capa é da autoria de Luís Manuel Gaspar.

De modo a sabermos algo mais sobre a génese deste livro, daremos voz ao seu coordenador, através da transcrição de alguns excertos do seu Prefácio, intitulado “Os Comboios que vão para o Funchal”: «Há sempre um comboio a dormir na infância de qualquer homem. O Comboio do Monte, por mais inacreditável que seja imaginar a existência numa ilha atlântica, de uma sofisticada peça de relojoaria ferroviária, típica de uma certa paisagem de montanha europeia feita de prados verdes, bosques alpinos e neves eternas, é certamente um deles. Alimentou o sonho de crianças que o viram passar, galgando paulatinamente a encosta com o seu cheiro a hulha queimada, a sua sombra assustadora e reconfortante, o seu matraquear metálico característico.

Continuou a existir para além da sua morte anunciada, no final da época gloriosa que ele próprio inaugurou, ao entrar numa zona de latência onde a sua silhueta imóvel à sombra das árvores, o seu apito ecoando entre as névoas do Monte, o colorido das vozes em trânsito, acabaram por se agigantar na memória. Passou inexoravelmente para aquela distância instável a meio caminho entre o sonho e a realidade, como sucede às coisas felizes e irrepetíveis. […]

Antes de mais era importante que esta antologia tivesse a mesma feição cosmopolita que sempre caracterizou o Comboio do Monte, no qual, para além dos locais, se sentavam, lado a lado, num encontro breve e irrepetível, viajantes de todas as partes do mundo, para quem o comboio e a paisagem a que ele dava acesso, ficariam a pairar para sempre na retina como um parêntese sonâmbulo das suas vidas. Assim, enquanto os navios fundeados na baía eram reabastecidos de carvão para continuarem viagem de regresso à Europa ou em direcção às Américas, os seus passageiros que viam à distância o seu próprio meio de transporte, alimentavam-se de imagens para a sua memória futura. Experimentavam no fundo a mesma sensação de suspensão e distanciamento de si próprios que caracterizava o pensamento imaginante dos próprios habitantes do lugar ao verem passar o comboio. O Comboio do Monte foi, por conseguinte, para uns e outros, parafraseando alguém que também percorreu aqueles carris, uma potente máquina de emaranhar paisagens.

Sentei-me então nos escritórios poeirentos da estação do Pombal que aguarda ainda no limbo a sua futura dignificação como lugar simbólico da memória do Comboio com Asas, e pus-me a escrever cartas, como um velho funcionário da Companhia do Caminho de Ferro do Monte, tentando cativar novos passageiros para uma viagem especial no Comboio do Monte. Dessa estação postal, ponto de partida e chegada de todas as viagens, fui mandando postais, prospectos turísticos, fotografias de época, para procurar interceptar através deles aquele comboio que vive em hibernação dentro de cada homem na esperança de que, apelando ao comboio de corda que se chama coração, ao dar-lhe de novo corda, ele pudesse voltar a voar. […]»

A este apelo de António Fournier responderam pessoas de vários lugares: de Portugal continental, Madeira, Açores, Itália, Áustria, Canárias, Brasil, México, Paraguai, Panamá, Venezuela e Estados Unidos da América, num total de 30. Este número é ainda simbólico, pois é o mesmo da lotação da carruagem do antigo comboio. Seguidamente enumeraremos os títulos dos diferentes textos deste livro, acompanhados pelo nome dos respectivos autores: “Comboio com Asas”, Teolinda Gersão; “O Súbdito”, Júlio Monteiro Martins; “O Anteparo de Marfim”, de Margarida Gonçalves Marques; “O Jardim do Paraíso”, de Rui Miguel Saramago; “Up to the Mount: Ahead!”, de Manuel Jorge Marmelo; “Este Mundo é Todo Teu”, de David Oscar Vaz; “A Viagem para o Céu”, de Maria de Menezes; “As Asas”, de Isabel Cristina Pires; “Poucaterra”, de Irene Lucília Andrade; “O Baile dos Outros”, de Laura Moniz; “O Comboio do Infinito”, de Juan Carlos de Sancho; “A Questão é Simples: Uma Ideia em Três Actos”, de Mónica Bustos; “O Anjo Sem Cabeça”, de Leo Felipe Campos; “A Casa das Sereias”, de Élmer Mendonza; “Uma Abertura de Luz no Final de um Túnel de Árvores”, de Carlos Wynter; “Relato do Calafate Descalço”, de Francisco Duarte Mangas; “Montanha Abaixo”, de Joel Neto; “Maré de Alvedrios”, de José Pérez Reyes; “O Acordeão no Quarto ao Lado”, de Martin Amanshauser; “A Herança”, de Ana Nobre de Gusmão; “De Comboio para o Céu”, de Miguel Miranda; “O Homem da Madeira”, de Mário T. Barbeito; “My Own Private Comboio”, de Marco di Marco; “A Cavalaria Anfíbia”, de Miguel de Castro Henriques; “O Comboio Inexistente”, de Urbano Bettencourt; “A Corrente de Ouro”, de Maria Rosa Basílio; “Pouco Céu e uma Estrela”, de Alessandro Granata Seixas; “O Destino é uma Caveira com Três Órbitas”, de Lívio Macchi; “De Mão em Mão”, de Lawrence Schimel; “Funchal, 18 de Agosto de 1924”, de Matteo Rei; e por último e não menos importante, “ Índice de Nomes e Coisas”, de Gian Luca Favetto. No final do livro encontra-se uma secção intitulada “Notas sobre os Autores”, onde se encontram pequenos resumos bio-bibliográficos sobre cada um deles.

Este interessante livro coordenado por António Fournier poderá ser adquirido por 15 Euros através da secção Loja Virtual do site www.funchal500anos.com e informamos que o mesmo poderá ainda ser visualizado na íntegra através do seguinte link: http://en.calameo.com/read/000019 4222f3bda4fcc21




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