Como criar um personagem

Lições para um escritor iniciante

por Edson Aran

@Entrevista com o Vampiro

Nesta minha vida de escritor bem sucedido e cercado de mulheres por todos os lados, especialmente o de baixo e o de cima, ouço frequentemente a mesma pergunta: “Como faço para criar personagens surpreendentes capazes de me transformar num prosador laureado e cheio de mulheres querendo dar pra mim?”

Muito simples, meu caro. Criar um personagem inesquecível não requer prática nem habilidade. Siga os meus passos.

Evite criar personagens planos
Um bom personagem não deve ser plano, mesmo que você esteja escrevendo a biografia de um losango. Ele deve ser complexo e cheio de emoções ambivalentes como se fosse gente de verdade. Para isso, tudo o que você precisa fazer é deixar o personagem doidão de vez em quando sem qualquer motivo aparente.
Um personagem plano funciona assim:
“Capitu obedecia e jogava com facilidade, com atenção, não sei se diga com amor. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato; dava os últimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Era o de meu pai, copiado da tela que minha mãe tinha na sala” (Dom Casmurro, capítulo 31)
Note agora como um personagem complexo funciona melhor:
“Capitu obedecia e jogava com facilidade, com atenção, não sei se diga com amor. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato; dava os últimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Era o de um demônio medieval sodomizando uma freira amordaçada num calabouço escuro e úmido como os becos do Cosme Velho”
Daí pra frente, tudo o que Capitu fizer será complexo, mesmo que não seja. O efeito melhora se, no resto do livro, você não fizer mais referência alguma ao tal sodomita demoníaco.

Escrevas frases memoráveis para o seu personagem
Ninguém é Oscar Wilde, Bernard Shaw ou Millôr Fernandes, sempre com um epigrama engatilhado para disparar em eventos sociais. Mas, ainda assim, os grandes personagens sempre têm uma frase de efeito. Elas podem ser literariamente simples (“meu nome é Bond, James Bond”) ou complexas (“a vida, Horácio, é uma história cheia de som e de fúria, contada por um idiota significando nada”). Note como um diálogo fica muito melhor com frases mais elaboradas:
“—Você não me ouve, Capitu.

— Eu? Ouço perfeitamente.
— O que eu dizia?
— Você… falava que a consistência é o último refúgio daqueles que não têm imaginação.
— Qual consistência, Capitu. Eu falava…
— Falava que… só os muito fúteis não julgam pela aparência.
— Capitu…”

Dê um passado ao seu personagem
É muito importante que seu personagem tenha um passado. Ele não pode surgir na página 15 como se tivesse saído da maternidade – a não ser que ele seja um bebê predestinado a ser o anti-cristo. Neste caso, tudo bem. Mas se o personagem for adulto, um passado dará a ele mais dramaticidade e riqueza. Quanto mais nebuloso e misterioso for este passado, melhor. Aprenda:
“Capitu olhou para mim de um modo oblíquo e dissimulado, levantou o olhar sem levantar os olhos. De repente, seus olhos se arregalaram e ela disse:
— Bentinho! Ninjas!
Não atinei com a razão daquilo, mas ela mesma me esclareceu:
— Ah, desculpe, por um momento pensei que eu estava de volta à ruas sujas de Hokkaido durante a guerra com o czar Nicolau em 1905, que levou à conquista nipônica dos territórios da Manchúria e da Coréia. O que é mesmo que você dizia?”

Encha seu personagem de defeitos físicos
Personagens caolhos, cegos, manetas ou pernetas são mais lembrados pelos amantes dos livros do que aqueles que não têm nenhum defeito. Por que você acha que ninguém se esquece do capitão Ahab, do corcunda de Notre Dame, do Mr. Hyde e do monstro de Frankenstein? Veja como transformar um personagem vulgar numa figura literária inesquecível:
“Capitu tinha olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Na verdade, fiel leitor, tinha apenas um olho de cigana oblíqua e dissimulada. O outro ela perdera ainda na infância, quando tentara coçar a pálpebra com o gancho que lhe substituíra a mão esquerda. Por isso, agora, Capitu era conhecida como a horrenda Cigana Maneta Caolha do Engenho Novo”

Se tudo falhar, transforme seu personagem em vampiro
Vampiros vivem para sempre. Seu personagem também viverá.

Edson Aran (@EdsonAran) é escritor, jornalista, cartunista e desde 2006 é diretor da redação da Playboy. Publicou Na Kombi, Antologia, Barba Negra, Leya Cult, 2010; Delacroix escapa das chamas, Record, 2009; O Imbecilismo – e outros textos de humor, Geração Editorial, 2005; Blônicas, Antologia, Jaboticaba, 2005; Conspirações – Tudo o que não querem que você saiba, Geração Editorial, 2003; Quânticus – O Destruidor de Mundos, Opera Gráfica, 2002, A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos, Nova Alexandria, 2001; Aqui Jaz – O livro dos Epitáfios (com Castelo), Ática, 1996.

 




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