Conversa com tecnologia

por Dora Lorch

As relações em uma nova comunidade, novo condomínio ou nova escola são sempre complicadas. Cada família tem seus sonhos, valores e desconfianças. E quando se fala em filhos então é ainda mais complexo. Nas classes mais altas, a tendência é proteger a prole de qualquer problema. Nas classes menos favorecidas, é comum os pais deixarem os filhos arcar com as responsabilidades, mesmo que não tenha feito nada. O caminho do meio é o mais difícil, como diria Buda. Portanto, saber a hora de fincar pé e a hora de ceder é uma das tarefas mais difíceis.

Numa comunidade recém-criada, os meninos, no afã de delimitarem espaço e mostrarem quem manda mais, começam a brigar sem parar. O nível de agressividade é tão grande que, num belo dia, um grupo de pré-adolescentes ataca um menino pequeno, de aproximadamente oito anos. A camiseta do garoto ficou com a marca de um tênis, que deve tê-lo segurado enquanto estava no chão.

Assustado, o pai do garoto pede providências urgentes ou a punição do responsável. Mas quem deve ser responsabilizado? O menino que bateu primeiro, o que segurou ou o que fez a marca do tênis na camiseta?

Eis uma situação perigosa: achar um culpado. Pois quem estava assistindo e não fez nada para impedir é conivente com a agressão. Se fosse um julgamento, poderíamos dizer que são cúmplices do delito. Mas quem presenciou é responsável pelo que aconteceu? Em que medida?

Nesse caso, havia uma psicóloga envolvida. Ela sugeriu que todos os pais fossem chamados. Eles teriam de retransmitir aos filhos que aquele tipo de conduta não seria aceita na comunidade. A psicóloga conversou com cada pai que chegava do trabalho e contou os detalhes da história de agressão. Os pais, contudo, só queriam saber se seus filhos tinham sido os culpados. Pacientemente, a psicóloga explicou que esse não era o problema. Os “culpados” estavam na comunidade: os que agrediram, os que ajudaram a agredir e os que viram a agressão e não fizeram nada. A questão era mostrar a todos que não seria permitido que se comportassem daquela forma.

O pai do garoto que apanhou insistia em ir à delegacia. Mas o que aconteceria depois? Por medo da reação do meio, ele não deixaria mais o filho brincar fora de casa. Portanto, isso não resolveria o problema. Por outro lado, implicar a comunidade e mostrar que todos os pais estavam unidos em relação ao comportamento inadequado faria toda a diferença. Muitos pais duvidaram do efeito que a conversa pode ter sobre seus filhos. Nesse caso, felizmente, eles decidiram conversar. E não houve mais um incidente como aquele na comunidade.

É preciso perceber que temos uma parcela de responsabilidade sobre o que acontece a nossa volta. Se você é do tipo que acha que todos os políticos roubam, porque continua votando em ladrão? Nesse caso, a nossa responsabilidade está no voto. Em outras situações, a força está na pressão que podemos fazer. Um bom exemplo é escrever para parlamentares reclamando do aumento de salário deles.

Saber onde estamos implicados não quer dizer que somos culpados, mas mostra onde temos força para tentar mudar o que não concordamos. E claro, falar sobre a nossa indignação, o que nos aflige, ajuda e muito. Nem que seja para ensinar nossos valores para a próxima geração.

Dias mais tarde, depois do incidente citado, o responsável pela comunidade me dizia que a conversa resolve muitas coisas, ainda mais quando se conversa com “tecnologia”.




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