Dói quando pensa nela

por Henrique Schneider

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Mas é uma dor boa, sana – e talvez por isso não queira parar de pensar. Passaram os dias de perder a fome, de ficar olhando o longe como se nada mais houvesse, de esquecer as respostas que ainda há pouco sabia inteiras – estes tempos de aflitude passaram. Agora, o que fica é esta pequena agonia alegre de respirar e lembrar seu nome, de acordar e tê-la como primeiro pensamento em cada manhã, de mal saber o que fazer nas horas em que escuta sua voz,  de tremer sem sentir sempre que ela está próxima  – é ruim, isso? Ele sabe que é, mas também que não.
Ela apareceu em sua vida numa hora de erros, quando ambos já estavam ao lado de alguém que amavam, e foi um atropelo:  porque é sempre possível amar alguém e apaixonar-se por outra pessoa. Ele sorri enquanto pensa nisso, o copo de uísque sem gelo na mão e Nina Simone cantando “Solitude” como se fosse coincidência. Então. Apareceu sem verdadeiramente aparecer e, na mesma hora, ele soube que ela poderia ser a mulher de sua vida. Sabe-se lá por que razões ele teve esta certeza – a intensidade da risada, o olhar dela dizendo sempre mais que palavras, um gesto inexato, a rouquidão escondida na voz, o mau humor cheio de delícias, o dia em que a viu caminhando tranqüila em sua direção, tudo -, mas ninguém precisa de razões para suas escolhas. Ele soube, e era isso.
Mas nem ele e nem ela deram o passo. Porque o passo adiante seria o salto olímpico no escuro, o belo vôo sem volta, pulo suspenso no ar – e tanto, tanto a pesar, tantos lamentos, tantas construções, tanta vida ao redor, que a coragem não aconteceu. Ficaram um tempo, dançando o seu balé perigoso à beira do precipício, ele sentindo em suas mãos felizes a respiração suspensa de quem poderia ser a mulher de sua vida, e depois, sem que fosse necessário dizer nada, ambos se deixaram ir.
Serve-se novamente de uísque, o copo cheio, Nina Simone agora canta “Ne me quitte pas” e é tão lindo, tão lindo que ele se emocionaria mesmo se não estivesse tão frágil. Por isso, não há surpresa ao tempo em que percebe estas breves lâminas úmidas que descem de seus olhos. Também não há surpresa quando, sem notar, pensa nela mais uma vez: quem sabe a mulher de sua vida.
Dói, sim, pensar nela. Mas não.
Porque ninguém diz adeus impunemente (ninguém diz adeus), nem as coisas deixam de existir.
Um dia, quem sabe, daqui a dez ou quinze anos, sem encontros marcados, eles se encontrem em um café e descubram que estão solos, que alguns amores são passado e que outros nem chegaram a acontecer, que ambos então riam de algumas coisas e de outras fiquem em silêncio,  e então troquem telefones e decidam se ver outra vez.
E aí ele talvez descubra se ela é mesmo a mulher de sua vida.
Porque daqui a dez anos, ele pensa, a vida vai estar apenas começando.




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