Educação, violência e família – parte 4

por Dora Lorch

O texto a seguir foi apresentado durante uma palestra da psicóloga Dora Lorch no 12º EDUCAIDS, um encontro de educadores para a prevenção das DST / AIDS e das drogas, ocorrido na cidade de São Paulo entre os últimos dias 1 e 4. O artigo será dividido em partes e publicado ao longo das próximas semanas. Hoje, aborda as causas e conseqüencias da indisciplina.

f) Indisciplinas de modo geral

A falta de limites pode ter muitas razões, como as já citadas e outras. Entretanto, a mais comum é o stress. Isso mesmo, cansaço. Quando não existe castigo, punição, carinho ou explicação que faça a criança / adolescente parar, podemos estar frente a um caso de fadiga que nem a própria pessoa se dá conta.
Havia um menino tranqüilo a maior parte das vezes, que de uma hora para a outra ficava irascível e saia jogando o que encontrasse pela frente: mesa, cadeira. Ficava furioso. Depois de muitas tentativas de compreender o problema, os pais vieram procurar ajuda.
Descobrimos que este garoto ficava fora de casa por 12 horas e quando chegava ainda esperava acordado até tarde o pai chegar. Não, ele não dormia no meio do dia na escola porque achavam que ele já era grande para isso. E ele ainda estava na pré-escola! Tinha um irmão mais velho com quem se identificava e brincava com os amigos dele.
Claro, quando os pais ficavam muito irritados com ele, o esquema era o castigo físico. Analisamos, pais e psicóloga, que talvez o menino se sentisse muito exigido por andar somente com crianças maiores (o modelo dele era seu irmão e os amigos dois anos mais velhos, o que significava muitas etapas à frente).
Pedi que ele fosse incentivado a ter seus próprios amigos (a mãe deveria incentivar o convite de amigos da mesma idade para visitá-lo) e que o pai escolhesse um horário fixo para vê-lo, por exemplo, pela manhã. Na impossibilidade de estar com o filho, que ligasse diariamente.
Finalmente, acordamos com a escola que sugerisse que ele dormisse quando começasse a ficar irritado. Neste caso, não cheguei a ver o menino nenhuma vez. Não foi necessário. Liguei algumas vezes para saber se nossa conversa tinha surtido algum resultado. Uma semana depois da consulta, o menino tinha apresentado a tal irritação e a escola sugeriu que ele descansasse; acordou tranqüilo. Os pais relataram que nenhum outro episódio desta natureza tinha ocorrido depois.
Aqui podemos notar que o stress estava relacionado com o cansaço, com a exigência que a própria criança tinha de si mesma e provavelmente com a punição física. Por que? Porque, em geral, a punição física vem quando os pais já perderam as esperanças e a vontade de explicar. Em outras palavras, o tapa é o limite para a criança parar.
Ocorre que nem sempre ela sabe porque está apanhando e isso a deixa sobressaltada, sem saber como deve agir. Soma-se a isso o fato de estarmos sem paciência em momentos diferentes, o que não dá para a criança padrão de comportamento (exemplo: não posso insistir senão apanho) e a coloca de prontidão, aumentando a chance de stress.Agora, se o professor não perceber que aquela indisciplina é o corpo pedindo arrego, a briga vai ficar estremecida e ninguém vai chegar a lugar algum. Pior que isso, ambos vão se desgastar e aumentar o stress mútuo.
Então, em caso de indisciplina, que tal dar uma parada e conversar com o aluno para tentarem descobrir outro meio de agir? Se não for o suficiente, que tal chamar a família para juntos descobrirem o que está fora de lugar? Porque ninguém acorda de manhã e resolve que aquele é um belo dia para infernizar o professor.
g) Falta de Limites

Cansei de ouvir que falta de limites na escola é falta de limites em casa, e teria acreditado não fosse a vivência com crianças vítimas de maus tratos. Durante cerca de dois anos, recebi crianças de diversas idades e séries, cuja reclamação era hiperatividade, falta de limites e agressividade.
Interessantemente, a quase totalidade das crianças ou apanhava dos pais, ou era tratada com brutalidade. Estas observações me mostraram que, em geral, a “falta de limite” está correlacionada com limites demais, ou abandono.  Não entenda aqui abandono como má conduta materna, muitas vezes é a única solução: salário achatado, nem sempre os pais ajudam nas despesas, escola período integral ainda é para poucos privilegiados, então sobra deixar o filho em casa sozinho, com o irmão mais velho ou com uma empregada quase nunca qualificada.
Quem ensina a fazer lição? A pesquisar? A estudar para prova? Quem ensina a conversar e não usar a força bruta? Quem ensina a ter paciência, que agora é a vez do outro? As professoras ainda acham que as mães, depois de um dia estafante, têm que ter tempo e paciência para ajudar os filhos nas lições e conversar sobre tudo o que aconteceu. E cuidar da roupa. E fazer comidinha saborosa e diferente a cada dia. E ter paciência para ouvir as brigas. E fazer economia. Alguém consegue?
Algumas escolas públicas não conseguem dar conta nem de ensinar a ler e querem que as mães façam esta tarefa?! Outras escolas particulares contam com as mulheres em casa cuidando dos filhos. Será que dá? Acho que trabalhar fora de casa é uma necessidade além da econômica: não consigo pensar em alguém tranqüilo e saudável que passe o dia inteiro à disposição dos filhos. Cansa! Desgasta! E nunca é o suficiente. Além disso, ensina que alguém deve estar sempre à sua disposição. Que horror!
É claro que tem criança mimada, aquelas pelas quais os adultos fazem as coisas antes mesmo delas tentarem. Nós, reles mortais, que temos que fazer tudo por nós mesmos, achamos que elas se julgam superiores. Ledo engano! As crianças super-protegidas não se sentem superiores, sentem-se inseguras: “Se alguém faz por mim deve ser porque não tenho competência”. Mas jamais confessarão! Não contarão de seus receios. Elas precisam de segurança e amparo para conseguir ultrapassar as barreiras que as outras crianças ultrapassaram normalmente. E claro, saber que o mundo não esta à disposição.

Voltando à questão do limite, minha experiência mostra que as crianças mais exigidas, aquelas que os cuidadores mais pressionam com regras o tempo todo, são as que mais “folgam”, porque têm que existir um lugar onde elas possam voltar a ser crianças. Portanto, antes de reclamar de um aluno com “falta de limites”, procure saber como ele é na realidade, e quem sabe fazer um acordo dos momentos em que ele pode bagunçar e quando precisa ficar concentrado.




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