por Dora Lorch
Era uma mulher interessante, de presença marcante, alta, encorpada, cheia de opiniões para dar, apesar de muito agressiva com a filha, digo com os filhos e agregados. Como tudo começou não faço idéia, mas sei que ela batia tanto na filha adolescente, que a menina vinha cheia de cicatrizes de cortes, e manchas de pancadas. E a Marília era uma amor, além de muito miúda. Os psicólogos e demais autoridades estavam preocupados porque Patrícia sabia que tinha agredido a filha, mas não parecia estar arrependida, pelo contrário avisava aos interessados que ia continuar batendo, que Marília tinha o poder de tirá-la do sério. Na verdade a menina estava grávida e Patrícia não conseguia agüentar este golpe, afinal Marília só tinha 13 anos!
A irritação de Patrícia era sensível. Junto com ela veio o filho mais velho, magrinho, encolhido como a irmã, apesar de seus 26 anos. Ele também quase não falava. Soubemos que era casado pela segunda vez, tinha uma filhinha de quatro anos, e morava na casa dele junto com a mãe e a irmã. Era claro que Mamãe comandava a casa dela e dele.
Perguntando sobre sua vida, Patrícia contou que fora bailarina de um famoso, viajava muito, tinha muito dinheiro e o filhinho cresceu com tudo o que tinha direito, mas vendo a mãe muito pouco. O primeiro marido, pai deste mocinho, era solidário com ela, tanto que anos depois ambos montaram uma empresa de sucesso e se tornaram empresários de relativo sucesso. Aparentemente as coisas iam bem até que Patrícia descobriu que estava sendo traída, e pior que isso, o marido “roubou” tudo que eles tinham construído. Desesperada, sem recursos, com a auto estima reduzidíssima, ela deprimiu. Na depressão as pessoas perdem a vontade de se arrumar, sentem-se fragilizadas, ou seja, não acreditam que tenham força para fazer o que elas fariam normalmente, comem de menos ou demais, ficam sem vontades. Na depressão as pessoas não agüentam se mexer, tudo parece deman dar um esforço sobre-humano, por isso ficam “jogadas” na cama ou no sofá. Quem vê pensa que é preguiça, mas na verdade é algo muito mais sério, que não raro demanda tratamento psicológico e muito freqüentemente médico também.
O filho contou que a mãe criava muito caso com a esposa dele, que gritava muito, que era muito agressiva, e ele ficava no meio sem saber o que fazer. Contou que Patrícia brigava com a nora por tudo e qualquer coisa. (Braveza excessiva pode ser depressão, pois as pessoas ficam sem energia e por isso mesmo sem condições de agüentar que as coisas não são como elas querem.) Ele reconhecia o quanto a mãe o ajudou e ficou ao seu lado, mas estava sufocado. Contou que depois da separação conseguiu trabalhar com o pai, ter uma loja própria e comprar o apartamento da mãe, a casa da irmã e a sua casa atual; que lutou muito para conseguir isso tudo, mas agora estava paralisado sem ter onde trabalhar. Portanto a depressão da mãe de alguma maneira interferia em sua vida, e neste caso não ajudava nem ele nem a mãe, nem sua família.
O que nós psicólogas<http://blog.uol.com.br/#_ftn1>[1] poderíamos fazer?
Claro que o nó era o relacionamento familiar, mas como conseguir que esta mulher tão cheia de energia conseguisse se acalmar…
Decidimos que a energia da Patrícia precisava ser redirecionada, de modo a permitir que os dois filhos seguissem o caminho deles. Claro que Marília precisaria de acompanhamento psicológico para entender porque se colocou nesta situação (grávida, adolescente e sem um companheiro). Depois de algumas sessões psicoterapêutica conseguimos mostrar para a mãe que ela estava revoltada com a situação, mas mais do que isso estava irritada com ela mesma, com muita energia parada, e esta energia a envenenava. Perguntamos porque ela deixou de ser empresária e orientamos para que ela retornasse a seus negócios.
Dois meses depois Patrícia e Marília estavam mais tranqüilas, o relacionamento delas melhorou, e coincidentemente Patrícia começou um novo negócio.
O filho acreditem, depois de alguns meses de psicoterapia resolveu viver de música, e parecia bem mais feliz.
O trabalho só começou, mas que diferença na vida destas pessoas!
Por isso acredito que cuidar das mulheres, que não raro são o esteio emocional da família, pode mudar o futuro de uma geração. Sabe aquela história que tudo é culpa da mãe? Pois é, nós temos mais força do que costumamos acreditar, e se nos fortalecermos conseguiremos ajudar nossos filhos, nossas amigas, conhecidos, conhecidas… Fortalecidas conseguiremos mudar o mundo. Para melhor!
[1] Como a esmagadora maioria dos profissionais de psicologia são mulheres, vou usar o feminino contrariando as regras de gramática atuais, mas indo de encontro à lógica do século XXI.