O telefone tocou e Heitor atendeu sem maior vontade.
“Eu gostaria de falar com a dona Soraia, por favor.” – pediu a voz do outro lado da linha. Uma voz de homem – jovem, educada.
“Não tem nenhuma Soraia por aqui.” – respondeu Heitor, desligando antes que o outro pudesse dizer qualquer coisa.
Não demorou dois minutos e o telefone tocou novamente.
“Bom dia. Eu gostaria de falar com a dona Soraia.” – a mesma voz, a mesma educação gentil.
“Ôrra, meu! Eu já disse que aqui não tem nenhuma Soraia!”
“Desculpe,” – a tranqüilidade estudada se mantinha, imperturbável. “É que ela fez uma compra em nossa loja e deixou este telefone para contato. E é este mesmo, porque já liguei duas vezes. Eu precisaria apenas confirmar uns dados cadastrais…”
“Cara, eu já falei que aqui não tem Soraia nenhuma!” – Heitor agora era um grito ao telefone. – “E mais! Quem vocês acham que são prá ficar ligando prás casas das pessoas e pedindo número de CPF, identidade, o escambau? Vai ver pedem até senha do banco! Quem é bobo de dar essa informação por telefone??”
“A dona Soraia informou que poderíamos ligar…”
“Mas aqui não tem Soraia, seu bocó! Não escutou o que eu disse? Vou repetir, então: não tem nenhuma Soraia por aqui! Entendeu ou precisa desenhar?” – e a essa altura Heitor já estava irado: estivesse a voz mais próxima e iria chamá-la para a briga.
“Tudo bem, amigo. Não precisa se exaltar. Foi apenas um engano. Desculpe e até logo.”
“Vou te dar o engano! Ligam só para aporrinhar o dia da gente!” – gritou Heitor para um telefone mudo: o outro já havia desligado.
Olhos em fúria, Heitor permaneceu ainda alguns segundos mirando o bocal do aparelho, como se a voz pudesse aparecer por ali e ele conseguisse dar vazão àquela vontade de bater em alguém.
Bater, bater, bater. Bater até cansar.
Ao seu lado, muda e transida de um pavor cada vez mais diário, Soraia já não sabe o que fazer com os ciúmes doidos do marido.