29 nov 2009
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Engrenagem

Henrique Schneider

Desde que começara na repartição, anos atrás, Zigmar não tinha chefe. Isso não o impedia de cumprir suas tarefas cotidianas, que consistiam, basicamente, em recolher o lixo nas diversas salas, juntá-lo em sacos maiores e depositá-los nas lixeiras existentes em frente ao prédio. A falta de chefe não lhe atrapalhava o trabalho.

Mas quando soube que ganharia um chefe, Zigmar exultou. De uma vez por todas, pensou, pareciam haver reconhecido a importância do setor. Alguém a fiscalizar, supervisionar: certamente o trabalho renderia mais e melhor.

Quando o chefe enfim chegou, Zigmar não conseguiu falar com ele de imediato. O homem parecia bem ocupado, usando gravata e tudo o mais, e apenas disse-lhe que aguardasse o assessor que estava sendo contratado. As questões de Zigmar deveriam ser tratadas diretamente com o assessor, enfatizou, porque não teria tempo para resolver tudo. Disse isso e correu para uma reunião, enquanto Zigmar pensava, cada vez mais, que suas funções estavam ficando importantes. Um chefe – e ocupado, ainda por cima!

“Mas e o lixo?” – perguntou, quando o chefe já saía – “Continuo recolhendo igual?”

“Fale com meu assessor.” – repetiu o homem, seco.

Antes do assessor, chegou à repartição a nova secretária do chefe, junto com móveis modernos e a reforma na sala recém instalada, onde infindáveis reuniões aconteciam uma após a outra. A secretária não sabia muito o que fazer, mas também parecia importante a Zigmar – até porque era sobrinha do prefeito.

“E o lixo, dona Flora? Recolho como sempre?

“Sei lá, Zigmar. Sou só a secretária aqui.”

Quando o assessor enfim chegou, Zigmar conseguiu falar com ele, dois dias depois de marcar hora. Entrou rindo de nervoso na sala do outro, achando-se incapaz de entrar num lugar tão importante. Quando, por fim, perguntou ao assessor se deveria continuar recolhendo o lixo da mesma maneira, o outro não respondeu.

“Vou falar com o chefe.”

Zigmar esperou a resposta por uma semana, impressionado com o vai-e-vem e as gravatas de seus superiores, que nunca conseguiam tempo para atendê-lo mas que, pela pressa, pareciam estar sempre resolvendo problemas importantes. Isso até hoje de manhã, quando o assessor achou uma brecha na agenda e, nos minutos rápidos em que conversaram, apenas informou-o que estava despedido, porque as pessoas andavam reclamando bastante que o serviço já não era mais feito como antigamente.




Tipo que nem acontece com os políticos daqui? Há uma conexão, certo?

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