Enquanto isso, na academia…

A história não contada de Machado de Assis

por Edson Aran

Empertigado em seu fraque engomado, Machado de Assis abre a primeira reunião da Academia Brasileira de Letras.
“Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia pela consagração da idade…””
No fundo da platéia, alguém grita:
“Cala a boca, ô crioulo!”

Machado fica puto nas pantufas.
“Quem foi que falou? Hein? Foi você, Joaquim Nabuco?”
“Ora, meu caro Machado, eu seria incapaz de tal impropério!”, responde o diplomata, historiador e jornalista.
“E você, Rui Barbosa? Foi você?”
“Como eu poderia cometer tal desfaçatez, árbitro das letras, filósofo do romance, joalheiro do verso e mágico do conto?”

O Bruxo do Cosme Velho bufa, resignado, e retoma o discurso de posse:
“A Academia nasce com a alma nova e naturalmente ambiciosa…”
Mas lá do fundo vem de novo a voz provocadora:
“Preto não pode subir no tijolo que já quer fazer discurso!”

Dessa vez o escritor fica deveras irritado.
“Parou! Parou! Quem foi? Foi o espertinho do Bilac?! Hein, Olavo? Repete isso na minha frente que eu te dou um tapão na orelha que você vai ouvir estrelas! Eu já falei pra vocês: eu não sou preto. Eu tenho até escravos lá em casa pra provar! Eu escrevo sobre a alta burguesia carioca! Quero distância do criouléu! Distância!”
Alguém cantarola lá no fundo:
“Preta, preta, pretinha/ Eu ia lhe chamar/ Enquanto corria a barca…”
“Assim não dá, porra!”, esbraveja Machado. “É você, Aranha? Tô ligado que tu é cheio de graça, vagabundo! Tu tá me tirando, mano?! Não sabe onde mora o perigo, não, ô seu preiba do caraio? O tambor vai girar procê, tá ligado?!”
Rui Barbosa, a braço apoiado na cadeira, enquanto a mão sustenta o imenso cabeção, comenta com o Visconde de Taunay:
“Ô crioulo difícil…”
Ao que Taunay, abrindo um largo sorriso desdentado, complementa:
“Tchan!”

Edson Aran (@EdsonAran) é escritor, jornalista, cartunista e desde 2006 é diretor da redação da Playboy. Publicou Na Kombi, Antologia, Barba Negra, Leya Cult, 2010; Delacroix escapa das chamas, Record, 2009; O Imbecilismo – e outros textos de humor, Geração Editorial, 2005; Blônicas, Antologia, Jaboticaba, 2005; Conspirações – Tudo o que não querem que você saiba, Geração Editorial, 2003; Quânticus – O Destruidor de Mundos, Opera Gráfica, 2002, A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos, Nova Alexandria, 2001; Aqui Jaz – O livro dos Epitáfios (com Castelo), Ática, 1996.




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