Escolher o sorriso

por Henrique Schneider

A molecada é toda uma festa móvel andando pela rua, repassando aos ares o alarido feliz dos seus onze anos, enquanto voltam da escola carregando livros e bugigangas várias. Rodrigo talvez seja o mais animado, porque hoje Rebeca está junto com a turma e é necessário impressioná-la – quando forem mais velhos, ele tem certeza, irá casar-se com ela. Meia dúzia de garotos e garotas, cuja alegria vale por uma centena. Infância é o nome deste barulho.

De repente, eles pegam o ônibus e para o coletivo transferem a sua festa. Gritos, brincadeiras, piadas que de alguma forma destoam do silêncio cansado do resto dos passageiros, que voltam para suas casas depois do trabalho e que parecem ter para si um código mal definido de que nesta viagem é proibido falar ou sorrir.

A gurizada não dá bola para o silêncio dos outros, não se incomoda com isso. Mas o silêncio dos outros, esse sim parece incomodado com o fogo buliçoso das crianças. Há dois mundos dentro do ônibus. Até a hora em que um senhor, que tentava seguir viagem olhando para fora como se os garotos não existissem, resolve que é hora de não agüentar mais tanta alegria.

“Ô, seus moleques, será que vocês não podem se aquietar um pouco?”

Os pequenos param por um instante, subitamente assustados com a tanta seriedade da vida adulta. E os olhos severos dos outros passageiros parecem concordar com a chamada do homem. Depois, no entanto, os garotos se olham e sorriem entre si, porque a verdade é que não fazem nada demais. E Rodrigo acha que ali está a chance de que Rebeca o note de verdade.

“A gente pode se aquietar um pouco, sim. Mas o senhor também podia tentar rir um pouquinho mais.”

É a vez do homem se surpreender. Esperava apenas que a garotada baixasse o volume, não estava preparado para uma resposta que, num primeiro momento, até pode parecer um desrespeito – mas que também pode ser um pedido bem intencionado.

E então dá-se o pequeno milagre: o homem desarma o mau humor e sorri. Os passageiros mais próximos também ensaiam uns sorrisos, que vão aumentando ao tempo em que encontram uns aos outros.

Rebeca, ao lado de Rodrigo, o olha com uma admiração nova.




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