Esqueça o celular no avião

por Claudia Matarazzo

Recentemente os jornais publicaram uma notícia de que, em breve, os passageiros de vôos comerciais poderiam ficar liberados para usar seus próprios celulares em ligações durante a viagem. Há desafios técnicos e de segurança, naturalmente, porém logo, dada urgência e a importância de se poder continuar conectado resolvendo problemas terrestres – ainda que durante a refeição na poltrona ou interrompendo o filme destinado a lazer – é provável que estes sejam vencidos e a humanidade poderá finalmente desfrutar de seus celulares inclusive durante vôos.

Na verdade, ao ler esse tipo de notícia tenho sempre a sensação de que as pessoas estão de tal forma empenhadas em uma louca corrida contra o relógio – tal qual o coelho de Alice no País das Maravilhas – que não se dão conta que já perderam a corrida. Ou o bonde, o trem, se preferirem.

Pensem comigo. Com a possibilidade de sermos alcançados e “acessados” em terra pelos mais variados sistemas de conecções – do telefone fixo, passando pelos bips, celulares, net, e uma gama enorme de novas tecnologias – a proibição de celulares e uso de mouses sem fio em aviões, faz deles um último oásis onde ainda é possível desfrutar de luxos como ler, refletir e até mesmo comer sem interrupções.

Se esta proibição cair por terra, estaremos condenados a passar horas confinadas em um espaço exíguo, ouvindo dezenas de pessoas falando – e muitas vezes gritando – sobre assuntos que nada tem a ver conosco. Isso quando não seremos nós mesmos as vítimas alcançadas por problemas domésticos e profissionais que continuam a pipocar enquanto nos deslocamos.

Não entro no mérito das facilidades que tal possibilidade possa nos oferecer (embora tenha profunda convicção de que as perdas são muito maiores do que os ganhos). Porém, deixa-me perplexa a capacidade que os homens parecem estar adquirindo de fugir de si próprios.

Em que momento as pessoas estão parando para pensar em si própria. Nada muito complicado, apenas aqueles momentos quando fazemos um balanço, não da vida, mas do mês. De como nos sentimos com nosso trabalho, nosso companheiro, nossos filhos. Ou quando nos deliciamos com recordações das últimas férias, do novo amor, do último aumento de salário. Quando dá para refletir sobre a perspectiva de novos projetos, ou o orçamento do mês, sonhar com o algum objeto de desejo que gostaríamos de ganhar ou nos dar, pensar sobre o presente, revisitar o passado avaliar o que nos espera.

Nestas poucas horas (e muitas vezes são apenas minutos) é possível detectar erros e acertos, realinhar cursos, reencontrar convicções. Ou simplesmente relaxar e gozar plenamente nossa própria companhia.

Enquanto não nos dermos conta de que o nosso é o ritmo da natureza, continuaremos como o coelho de Alice: humilhados pela sensação de atraso permanente, esbaforidos tentando alcançar a vida que nos escapa por ponteiros de relógios que nós mesmos insistirmos em adiantar.




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