Etiqueta de berço

Dia-a-dia Revista
domingo, 1 de novembro de 2009
Angelica Nicoletti

Claudia Matarazzo, especialista em etiqueta, é a todo-poderosa do cerimonial do Palácio dos Bandeirantes

O sobrenome Matarazzo batiza extensa lista de personalidades do País. Do patriarca Francesco, italiano que chegou ao Brasil e aqui ergueu o maior império industrial no século passado, faz parte da interminável relação de nomes de projeção em vários cenários nacionais. Entre eles, o diretor de TV Jayme Monjardim e o senador Eduardo Suplicy. A ala feminina traz Maria Pia e, mais contemporaneamente, Claudia Matarazzo. E põe contemporaneidade nisso. O currículo dela traz tantas frentes de atuação quantas áreas de interesse dessa sagitariana urbana.

Cantora, apresentadora de TV, de rádio, professora, jornalista, escritora, palestrante e com site próprio, ela é a atual chefe do cerimonial do Palácio dos Bandeirantes. Cargo que assumiu há três anos e que a colocou frente a frente com autoridades como o papa Bento XVI e, por consequência, com situações para as quais poucos estão preparados, mas que Claudia tirou de letra. Sua atuação palaciana coroa carreira consagrada como escritora de modos e modas.

De 1994 até hoje foram 12 livros, 11 deles sobre etiqueta, todos em tom coloquial, mas não menos sérios. A última publicação e atual menina dos olhos é o Vai Encarar? Provocativo, é um livro-reportagem, no qual a autora exercita mais intensamente sua veia jornalística ao coletar e redigir relatos e orientações sobre a inclusão social dos deficientes. Com o subtítulo Uma Nação (Quase) Invisível de Pessoas com Deficiências, a obra traz histórias e reflexões de superação. Mas as redações de Claudia não param aí; ela já tem não um, mas dois novos temas que vem rascunhando mentalmente: um deles é sobre cerimoniais e o outro, culinária.

Eis mais uma das suas confessas paixões e que por pouco não a levou a trilhar outro caminho: a de chef. Bem, ainda dá tempo!.

Aos 51 anos, Claudia Matarazzo conta que tudo aconteceu em sua vida tardiamente. Com humor, definese “um pouco lerda“. “Mas com a idade, tenho aprendido a agilizar o tempo.“ E ilustra a sua, digamos, lentidão: seu casamento “já beirando os 30 anos“ com o financista Fernando Mieli e o nascimento de Valentina, “perto dos 40“.

É com a filha única em plena pré-adolescência que ela reflete sobre a necessidade de esticar o tempo em um mundo que cada vez mais gira em torno da tecnologia digital.

Praticante do slow movement, que prega fazer menos coisas com mais qualidade, destina para si uma hora diária de quietude. Sábia, sabe que só nesse momento poderá tirar proveito do silêncio, pois, ao fim dos 60 minutos, celulares e mensagens instantâneas a colocarão em sintonia com a agenda farta de compromissos e no comando de 30 pessoas que coordena no cerimonial. À noite, apesar de mil convites para badalações, prefere o lar, onde acompanha as lições de escola de Valentina e se dedica a assistir às cenas de alguns capítulos de novelas.

Tamanhas atribuições fizeram com que esta entrevista fosse dividida em duas fases: um almoço em Santo André e um bate-papo em São Paulo. Este foi após uma das 15 palestras mensais sobre etiqueta (diga-se mais: entremeada por outra dezena de ligações telefônicas, às quais, polidamente – e eu diria até desnecessariamente – sempre se desculpou por não atender).

Bem, ela é uma lady dos tempos modernos que não perde o humor, o alinhamento dos fios de corte Chanel, o make discreto e o largo sorriso com o qual sempre agradece a qualquer sinal de gentileza que recebe e, mão dupla, concede quando a faz.

A seguir, leia trechos da entrevista que Claudia Matarazzo concedeu à Dia-a-Dia Revista.

DIA-A-DIA REVISTA – Você tem uma filha pré-adolescente. Como ensinar etiqueta para jovens?

CLAUDIA MATARAZZO – Nessa fase eles acham tudo mico, mas não desisto. Até tem a história da casa de ferreiro espeto de pau. Com 5 anos, a Valentina era uma princesinha à mesa. Depois dos 6 foi desaprendendo. Mas não desanimo. Acredito no trabalho de formiga.

DIA-A-DIA – É uma característica dessa geração?

CLAUDIA – Sem dúvida. Antes fazíamos as refeições em mesas; hoje os adolescentes se alimentam na sala à frente da TV, no quarto, na bandeja, na mesa de estudo. Aliás, acho que pelo tempo que ficam na internet, a mesa de comer é a bancada do computador.

DIA-A-DIA – Esse mundo digital aproxima ou afasta as pessoas?

CLAUDIA – Há pouca intimidade. O conceito de amizade mudou. De que adianta ter um zilhão de amigos no Orkut se nenhum deles frequenta sua casa ou você a deles? Hoje tomamos café fora de casa, de forma apressada. Não existe mais tomar café na casa da amiga.

DIA-A-DIA – Falta intimidade entre as pessoas?

CLAUDIA – Como exemplo tem essa história de comemorar o aniversário em um bar, com cada um pagando o que consome. É tão mais simpático convidar para a sua casa. É só pedir para cada convidado levar um pratinho e pronto. Não é um bicho de sete cabeças receber alguém. O segredo é proporcionar bem-estar, que pode ser até servindo um copo de água.

DIA-A-DIA – Ainda há desdém sobre o assunto etiqueta?

CLAUDIA – Quando comecei a falar de etiqueta, em 1994, as pessoas ainda questionavam, achavam que era afetação. Tinham dúvidas sobre a real necessidade. De lá para cá tem uma diferença grande de abordagem; todo mundo sabe que precisa aprender, mesmo que seja para se defender em determinadas situações.

DIA-A-DIA – As demandas são as mesmas para homens e mulheres?

CLAUDIA – Para eles, o que pega é como se comportarem à mesa em almoços e jantares de negócios. Eles buscam a etiqueta como ferramenta.

DIA-A-DIA – E a mulher?

CLAUDIA – Sem dúvida, a moda. Recebo também muitos pedidos

sobre situações que envolvem eventos, principalmente casamentos, ocasião cada vez mais valorizada socialmente. Hoje viraram megaeventos. Falo para quem quiser ouvir: é melhor uma festa para 150 a 200 pessoas do que para 1.000. Festa de casamento tem de ser íntima. Acredito que o impacto de algo mais glamouroso para poucos convidados é maior do que uma festa menos sofisticada, com muitos. Temos de caminhar para o pequeno e bastante luxuoso.

DIA-A-DIA – Assusta lidar com os grandes eventos no cerimonial do Palácio?

CLAUDIA – Não mais. Agora vai no embalo. Entrei em outubro de 2006, pouco antes da posse do governador José Serra, e já tinha como missão estudar a vinda do papa, que foi uma operação muito meticulosa. Foi aí que conheci Mário Ameni (especialista em cerimonial e assessor de Claudia), que é meu braço-direito.

DIA-A-DIA – Qual foi o seu maior susto no cerimonial?

CLAUDIA – O maior foi o papa. As primeiras reuniões eram com 100 pessoas planejando a vinda do pontífice. E era tudo absolutamente necessário: ver as rotas, estudar inversão de rua, e até cortar galhos de árvores por onde Sua Santidade iria passar. Nem sempre as visitas têm essa proporção, mas é preciso providenciar tudo: estudar protocolos e a cultura dos visitantes e até ações mais prosaicas, mas também importantes, como mandar lavar e aspirar o tapete, verificar a ala de guardas, a guarda montada, os presentes para as autoridades. Graças a Deus, eu tenho um anjo da guarda e tudo dá certo.

DIA-A-DIA – Já presenciou muitas gafes de políticos?

CLAUDIA – Na visita do papa, se houve nem percebi, pois a atenção era com outras demandas. Na verdade, tem menos gafe do que a gente supõe. Tem mais imprevisto. Mas já fiquei chocada, sim.

DIA-A-DIA – Por exemplo?

CLAUDIA – Na posse do governador José Serra, o que me chocou muito foi ver saindo da festa um sujeito, que nem sei quem era, com quatro taças de espumante com o brasão do Palácio. Aquilo foi meu batismo. O exemplo mais recente foi o de uma pessoa carregando mesinhas dobráveis usadas para apoio de copos. Dessa vez não tive dúvidas: pedi para um funcionário ir até o sujeito e pegar de volta.

DIA-A-DIA – E você?

CLAUDIA – Sempre é um desafio. Estamos sujeitos a gafes, mesmo que estudemos muito os hábitos de cada visitante. Um deles foi que, ao receber uma autoridade no carro (conforme o protocolo, o visitante é recebido em sua saída do automóvel, de onde é levado até o governador); ao dar a mão, ele esboçou uma reação de choque. Depois soube que ele estava em jejum e não podia tocar e nem ser tocada.

DIA-A-DIA – Imagino como deve ter sido com a recepção ao príncipe Naruhito, herdeiro do trono do Japão.

CLAUDIA – Eu e a minha equipe fizemos um curso de etiqueta japonesa específica para a corte imperial. Tivemos de ter muita atenção porque, pelas regras, não se pode tocar nem encarar o príncipe. Detalhe: a gesticulação dos integrantes da monarquia japonesa se limita à do pulso.

DIA-A-DIA – Imagino como foi para você. Uma típica descendente de italianos acostumada a se expressar com as mãos?

CLAUDIA – Tudo deu certo, mas à determinada altura, de uma forma muito natural, consegui falar com o príncipe que no passado a minha mãe havia jogado tênis com a dele em um clube em São Paulo (risos).

DIA-A-DIA – Ser uma Matarazzo abriu ou fechou muitas portas?

CLAUDIA – Houve todas as fases. Quando fui crescendo era difícil entender isso de ser uma Matarazzo. As pessoas falavam: ‘Nossa você tem muito dinheiro’. Era ainda época das vacas gordas, anos 1960 e 1970. Existiam as indústrias. Era um sobrenome de muito peso.

DIA-A-DIA – Isso a incomodava?

CLAUDIA – Muito. E para complicar fui fazer Jornalismo, onde era o fim da picada ser Matarazzo. As pessoas não queriam saber. Era um momento de luta, no qual muitos ainda estavam no exílio. Além disso não vivi só em um ambiente estudantil. Comecei a trabalhar aos 17 anos, quando cursava o primeiro ano da faculdade.

DIA-A-DIA – Você se sentia perseguida por causa do status de sua família?

CLAUDIA – Hoje reflito se era assim de fato ou se me sentia assim. De fato, me vestia de forma diferente, tinha o meu carrinho, um Chevette velho, mas os meus colegas não tinham carro. Aí percebi que passei muito tempo me justificando, pedindo desculpas por ter nascido bem. Queria que as pessoas olhassem e vissem como eu era legal. Foi um horror. Até que chegou um dia que comecei a desencanar. Cansei de me justificar.

DIA-A-DIA – Como foi essa mudança?

CLAUDIA – Às pessoas que diziam que eu era fresca, passei a dizer: Sou mesmo. Nasci bem mesmo. Sou de família rica mesmo. E não foi que a situação virou? Começaram a me respeitar e até pedir conselhos sobre como lidar com situações como a de receber em casa, como usar talheres.

DIA-A-DIA – Foram tantas dicas que você começou a escrever sobre etiqueta?

CLAUDIA – Imagine. Eu que já tinha sido da Libelu (Liberdade e Luta, corrente do movimento estudantil dos anos 1970 e que se considerava herdeira do pensamento do líder revolucionário russo Leon Trotski) estranhei quando um amigo, que era da Melhoramentos, fez o pedido. Ele justificou dizendo que era uma demanda de mercado. Escrevi Etiqueta sem Frescura, que fez sucesso e logo me pediram outros. Hoje vejo que foi um encaixe perfeito porque uniu meu gosto por escrever com o aprendizado que minha família havia me proporcionado com educação e viagens. E, além de tudo, estava aplicando o Jornalismo, que foi a minha segunda opção de carreira.

DIA-A-DIA – Qual foi a primeira?

CLAUDIA – Cantar, mas como na época não era algo considerado rentável e decidi seguir o conselho da família para buscar outra carreira. Mas ainda tenho planos de voltar a cantar. Na verdade quero aprender a tocar piano.

DIA-A-DIA – Superada a questão do sobrenome no passado, como é hoje?

CLAUDIA – Meu sobrenome abre portas porque aprendi a usá-lo. Parei de pedir desculpas e passei a capitalizar. E tento explicar isso à minha filha, para quem acho que é até pior. Além de Matarazzo, ela é filha da Claudia. Imagine o quanto é e será cobrada em relação à etiqueta. Tento explicar que ela tem de fazer as pazes com essa situação. Ao mesmo tempo ela estuda em escola de riquinhos. É a mesma na qual estudei, mas na época a situação financeira das pessoas era toda meio igual; hoje existem disparates. Por exemplo, ela anda de carro, não de helicóptero como algumas amiguinhas.

DIA-A-DIA – As distâncias estão maiores entre as classes sociais?

CLAUDIA – Vivemos a era do novo rico. Não é uma crítica, mas a constatação de um fenômeno dos tempos. Hoje surgem fortunas de uma hora para outra no mundo dos esportes e do show business. Não é como na época de Dolores Duran, que ganhava seu dinheirinho e no fim da vida estava confortável. Hoje o cara que canta, se fizer sucesso, logo ganha o Disco de Ouro e se torna milionário em um ano. As pessoas não têm tempo de aprender a usar o dinheiro que têm. Deslumbram-se, e com razão. Vão atrás da grife, do que a TV mostra como moda. Acho que se perderam vários parâmetros.

DIA-A-DIA – O que você vê na TV?

CLAUDIA – Muitas coisas. Adoro novelas.

DIA-A-DIA – Qual autor ensina mais?

CLAUDIA – Acho que Glória Perez tem um jeito de ensinar que pega facilmente o telespectador. Ela sabe passar a mensagem. A narrativa dela é interessante. Eu também adoro o Maneco (Manoel Carlos), na linha do diálogo.

DIA-A-DIA – Aliás, um dos personagens da novela Viver a Vida, de Manoel Carlos, passará por um trauma que você retrata no livro Vai Encarar?.

CLAUDIA – Sei que está previsto o acidente com uma personagem. Acho saudável que as novelas exponham e discutam questões como pessoas com deficiência.

DIA-A-DIA – Ainda é tabu?

CLAUDIA – As pessoas que não têm deficiências não enxergam as que têm porque é doloroso ver, literal e emocionalmente.

DIA-A-DIA – Por quê?

CLAUDIA – Porque a gente tem a cultura judaico-cristã que nos faz sentir culpa. As pessoas dizem: Ele está assim e eu, que tenho tudo, me acho um problema; Coitada, ela é cega e faz tantas coisas e a gente fica aqui reclamando. Meu Deus, as pessoas que não têm problemas de locomoção ou quaisquer outros também têm direito de reclamar. Mas muitos não sabem ou não aprenderam como lidar com a situação que envolve pessoas com deficiências. A pior coisa é não olhar, desviar o olhar. Por que não falar bom dia, boa tarde, boa noite? Se você viu que a pessoa está com dificuldades, ofereça ajuda. Talvez ela precise, talvez não. O importante é registrar presença.

DIA-A-DIA – Como as pessoas com deficiência estão reagindo ao livro?

CLAUDIA – Bem, porque para elas o importante era existir um livro sob a ótica de quem não tem, digamos, problema. O livro é sobre inclusão e não sobre deficiências.

DIA-A-DIA – Ficou deprimida em algum momento?

CLAUDIA – Ao contrário. Aliás, é um livro que tem muita vida. As pessoas são capazes de ir muito além do que podemos supor.

DIA-A-DIA – São mais corajosas?

CLAUDIA – Não é coragem; é enfrentar ou morrer. Elas têm poucas possibilidades e vão atrás muitas vezes do 1% de possibilidade. Também não gostam do paternalismo. Odeiam. São dois extremos: não gostam de ser ignoradas, mas não querem que as pessoas sejam over. Querem apenas ser reconhecidas.




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