Fui eu que matei o padre

por Henrique Schneider

Fui eu que matei o padre.

É simples, agora já está dito: fui eu que matei o padre. Isso estava meio entalado na minha garganta, e falar  me dá um certo alívio. Até porque eu estou arrependido. De verdade. Se eu soubesse, não tinha feito o que fiz. Mas tem uma coisa: como é que eu ia saber que o homem era padre? Quem manda estes padres moderninhos andarem por aí como gente comum, calça de brim, camiseta, tênis? Padre que é padre mesmo tem que usar batina, aquela enorme batina preta, crucifixo no peito,  que é para ninguém ter dúvida: aquele passando ali é o padre. Mas não.

Enfim.

Então fui eu que matei o padre. Olha só: depois que se fala a primeira vez, fica tudo mais fácil. Parece que um pouco do peso sai dos ombros da gente. Fui eu que matei o padre – a gente fala uma vez e parece que desentope, fica repetindo o que fez o tempo inteiro.

Mas não foi por querer – e mesmo assim, veja, eu estou arrependido. Porque ninguém fica aí matando padre por nada, não tem louco pra tanto: bastam  os problemas na terra, para que ficar adiantando as incomodações do céu? Não: eu estava na minha, ruazinha deserta como tem que ser, esperando a chegada do primeiro otário, quando o padre apareceu. Não que eu esteja chamando o padre de otário, longe disso, mas o fato é que ele apareceu. A pessoa errada na hora errada, sabe? E não tinha jeito de religioso, todo tranqüilo, roupinha legal e tudo o mais. Deixei o homem passar e, pelo andar, pela pinta, achei que tinha grana. Aí, dei dois passos e anunciei o assalto.

Maldita hora. Desculpa, não queria dizer isso.

Maldita hora em que anunciei aquele assalto. O homem começou a gritar de um jeito que parecia que era para todo  mundo ouvir. Eu mandei que ele calasse a boca – se ele tivesse ficado quieto, nada de mais tinha acontecido -, mas o homem gritou ainda mais forte, pedindo socorro e sei lá mais o quê. Aí, não sei bem o que me deu, nessas horas a gente sai um pouco da gente: quando eu vi, já tinha dado o primeiro tiro. Foi sem querer, nem me lembro. Os outros dois tiros também, acho que dei mais para ter certeza. Também foram sem querer, tanto que estou arrependido.

E me mandei. Saí correndo, nem quis levar nada.

Só fiquei sabendo que o homem era padre quando escutei as notícias e vi o enterro na televisão, o povo todo chorando. Não sabia que ele era tão querido, juro por Deus – desculpe.

Mas é isso, agora está dito: fui eu que matei o padre. Eu confesso.

E estou arrependido.

Agora me responda o senhor, padre. No segredo deste confessionário, o senhor me responda: eu, que matei o seu colega sem saber e sem querer, e que agora estou arrependido, quantas orações vou ter que rezar para ser perdoado?




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