Gisele contra a segurança Nacional

Era um dia calmo no Planalto quando…

por Edson Aran

Baranguilda da Silva, ministra da Associação das Mocréias Ligadas à Presidência da República (AMABAIACU), entra esbaforida na sala da presidente Dilma Rousseff.
“Companheira dona presidenta! Emergência nacional!”

Dilma Rousseff nem se vira para a recém-chegada e continua olhando fixamente a tela do computador.
“Manda demitir o ministro!”
“Que ministro?!”, pergunta Baranguilda, as duas mãos apoiadas no que um dia foi uma cintura.

Dilma Rousseff gira sua cadeira em 360º. Então percebe que continua em frente ao computador e decide fazer um giro de apenas 180°.
“Uai, não é ministro roubando?”, surpreende-se a mandatária da Nação.
“Não! É muito pior!”, esbraveja Baranguilda. “A senhora não viu a propaganda com Gisele Bünchen de lingerie?! É um desrespeito à condição da companheira mulher enquanto fêmea!”

Dilma Rousseff não diz nada. Baranguilda continua.
“O comercial trata a mulher como um mero objeto de prazer! Como se fôssemos apenas máquinas do sexo movidas pelo desejo irrefreável de obter muito, muito, muito prazer!”

A presidente continua olhando Baranguilda. A mulher continua.
“A propaganda induz os homens a verem suas mulheres com puro e irrefreável desejo animal! Como se tudo o que esses machos insaciáveis quisessem fosse nos apertar contra a parede e nos amar alucinadamente e sem parar durante horas e horas! Isso sem falar nas preliminares que também seriam intermináveis e alucinadamente meladas, suadas, abusadas e safadas…!”

“Sim! Siiiiiiimmmm! Siiiiiiiiiiiimmmmmmmmm!”, explode a mandatária da nação.

A ministra Baranguilda não entende nada.
“Hã… companheira dona presidenta… esse ‘sim’ aí é pra proibir a propaganda?”
“Hein? Ah, claro… Claro, brava companheira Baranguilda. Muito bem. Hã… Você tem toda razão. Manda tirar o comercial do ar!”, responde Dilma Rousseff antes de girar a cadeira em 360º e voltar a ficar de frente para a representante da AMABAIACU. Mas nesse momento, Baranguilda  já está saindo da sala alegre e saltitante feito um eleitor que acaba de ganhar um bolsa-família.

A presidente aproveita que está sozinha e gira de novo a cadeira em 360º. E mais 360º.

E fica girando e girando e girando e girando e girando.
Edson Aran (@EdsonAran) é escritor, jornalista, cartunista e desde 2006 é diretor da redação da Playboy. Publicou Na Kombi, Antologia, Barba Negra, Leya Cult, 2010; Delacroix escapa das chamas, Record, 2009; O Imbecilismo – e outros textos de humor, Geração Editorial, 2005; Blônicas, Antologia, Jaboticaba, 2005; Conspirações – Tudo o que não querem que você saiba, Geração Editorial, 2003; Quânticus – O Destruidor de Mundos, Opera Gráfica, 2002, A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos, Nova Alexandria, 2001; Aqui Jaz – O livro dos Epitáfios (com Castelo), Ática, 1996.




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