por Felipe Fortuna
Época / Data: 29/3/2004
Minoridade Crítica revela o diletantismo da análise musical feita no Brasil do século XIX
Uma qualidade evidente de Minoridade Crítica encontra-se na organização de uma antologia de críticas publicadas entre 1826 e 1861. A coletânea ilustra à perfeição a tese de Luís Antônio Giron, editor de Cultura de ÉPOCA, sobre a superficialidade da análise musical praticada no Brasil naqueles anos. Compilação paciente e exaustiva de um cânone virtualmente desconhecido, por meio da qual se pode tomar contato com a desolação estética e intelectual dos melômanos e dos apreciadores de música que escreviam na imprensa do período.
A datação se insere no conturbado tempo da minoridade de dom Pedro II (1831-1840), proclamado adulto, como se sabe, aos 14 anos. O símbolo da minoridade revela, no livro, o forte diletantismo praticado por todos aqueles que fizeram comentários sobre as obras musicais e as peças teatrais que se apresentavam no país. No prefácio ao livro, o pianista José Eduardo Martins recorda um ‘impetuoso’ Luís Antônio Giron que se fez conhecido ‘pela polêmica que produzia’. Coerentemente, Minoridade Crítica não esconde a verve e a lucidez de muitas análises, agora voltadas para o passado, nas quais o autor expõe, em tom de denúncia, as mazelas da crítica musical: preferência pelo evento social, em vez de concentração na análise da obra; aparição do dândi, que, quando não se oculta no pseudônimo, passa a insultar outro cronista, não raro também dândi, e quase sempre por futilidades. A sujeição ao gosto e à moda parisienses constitui o ornamento final ao ambiente de melancólica vacuidade. E mesmo a importação cultural não cumpria bem os objetivos de transmitir novas informações estéticas, pois amoldava-se às conveniências.
Como conclui o autor: ‘É curioso que duas das maiores intérpretes do vanguardista Berlioz – Anne Charton-Demeure e Rosine Stoltz – tenham feito longas temporadas no Brasil sem cantarem uma única peça do compositor francês; interpretavam somente ópera italiana’. Concluída a caracterização de tanta deficiência – na qual Gonçalves Dias é habilidosamente denominado de taquígrafo das sensações -, o ímpeto polêmico de Luís Antônio Giron aumenta nos dois capítulos finais, em que analisa as contribuições de José de Alencar e Machado de Assis para a crítica musical brasileira. O autor de Iracema (1865) combinaria o diletante e o folhetinista e teria atitude ‘distraída e superficial’, tendendo à dispersão, quando, muito jovem, escreveu sobre as peças que escutava nos teatros do Rio de Janeiro. Machado de Assis, por sua vez, teve curtíssima carreira de crítico musical e, como seus antecessores, preocupava-se bem mais com o público do que com as obras. Fazendo-se de entediado, ainda que alguma peça lhe provocasse deleite, ele escrevia: ‘Oxalá que sempre tenham dessas no meio da monotonia em que vegetamos neste país sensaborão’. Aqui ganha muita consistência a tese de Luís Antônio Giron sobre as críticas de caráter menor ou secundário que estão na origem de carreiras literárias bem-sucedidas. Minoridade Crítica combina pesquisa com análises certeiras do sofrido surgimento da crítica musical: se é de consulta obrigatória para o estudioso, transmite ao leitor leigo uma interpretação do Brasil em sua luta para sair da infância cultural.