História do Mário @EdsonAran

por Edson Aran

A saga do trocadilho imortal

1958: Numa festa cheia de mangüaça com Grapette, os poetas concretos Décio Pignatari, Oraldo Grunhevaldo e aqueles outros dois têm uma idéia genial: criar o trocadilho perfeito. Oraldo Grunhevaldo toma para si a tarefa hercúlea e diz: “Hei de fazer o melhor trocadilho!” No que Décio Pignatari responde: “Hei de, a pequena garota da montanha!”. Oraldo Grunhevaldo enfia a mão na cara dele.

1959: Depois de um ano trabalhando de sol a sol, Oraldo Grunhevaldo termina o trocadilho e reúne os amigos poetas para apresentá-lo. Na grande noite, Oraldo diz: “Você conhece o Mário?”. Décio Pignatari pergunta: “Que Mário?” E o Oraldo responde: “Aquele que te carcou atrás da geladeira!”. Ninguém entende nada e todos enfiam a mão na cara dele.

1960: Para prosseguir suas pesquisas, Oraldo Grunhevaldo consegue uma bolsa no Bureau Ostensivo Social do Trocadilhismo Avançado (B.O.S.T.A.). Isso dá tranqüilidade ao trocadilhista, que pode pendurar o paletó e pegar um cineminha.

1962: Depois de dois anos trabalhando de solo a solo, Oraldo Grunhevaldo termina o novo trocadilho e reúne os amigos poetas para apresentá-lo. Oraldo diz: “Você conhece o Astolfo?” Décio Pignatari pergunta: “Que Astolfo?” E o Oraldo responde: “Aquele que te carcou atrás do armário!”. Ninguém entende nada e todos enfiam a mão na cara dele.

1963: Desiludido, Oraldo Grunhevaldo se refugia na cidade de Santa Ignorância do Mato Fechado (MG) e vira amigo do escritor regionalista Pitoresco da Mata. Juntos eles escrevem o romance concreto-regionalista “Nheconheco na Chacachaca”, levado ao cinema nos anos 70 por Ody Fraga com o título de “Senta na picanha que eu frito sua chuleta”. Durante o refúgio em Minas, Oraldo encontra tempo para aprimorar o seu amado trocadilho.

1965: Depois de quase dez anos trabalhando de sola a sola, Oraldo Grunhevaldo termina o novo trocadilho e reúne os amigos poetas para apresentá-lo. Oraldo diz: “Você conhece o Mário?” Décio Pignatari pergunta: “Que Mário?” E o Oraldo responde: “Aquele que te carcou atrás do armário!”. Os poetas concretos rolam no chão de tanto rir. Menos Décio Pignatari que se tranca no banheiro e passa os dez anos seguintes chorando baixinho.

1967-1970: Oraldo Grunhevaldo é convidado a apresentar o trocadilho em várias universidades do Brasil e exterior. É considerado uma dos maiores intelectuais vivos de todos os tempos e é indicado para o prêmio Nobel de Trocadilho, que perde para o americano Thomas Thurber Brando.

1972: Durante uma histórica apresentação na Academia Trocadilhista Ontológica Conceitual Hermenêutica Associada de Trás-os-Montes (Atocha Trás), Oraldo diz:
“Vocês conhecem o Mário?”
Alguém se levanta no auditório lotado e responde:
“O irmão do Sunda?”
“Que Sunda?”, pergunta Oraldo.
“Aquele que comeu sua bunda!”, responde o interlocutor.
Todos os acadêmicos rolam no chão de tanto rir. Oraldo Grunhevaldo fica puto e todos enfiam a mão na cara dele.

1973: Desiludido mais uma vez, Oraldo Grunhevaldo trabalha vigorosamente numa resposta. Dois meses depois ele finalmente chega a uma fórmula: “Conhece o Mário, aquele que é irmão do Sunda? Que Sunda e que Mário? Aqueles dois que te carcaram atrás do sofá da sala”.
O trocadilho é recebido com total frieza pelo meio acadêmico. Menos por um jovem chamado Arnaldantunes que aplaude freneticamente. Todos enfiam a mão na cara dele.

1975-1980: Oraldo Grunhevaldo continua sua busca insensata pelo trocadilho que acabará com todos os trocadilhos. No começo dos anos 80, ele finalmente termina sua obra-prima. Em nova reunião da Atocha Trás, ele inicia a apresentação:
“Vocês conhecem o Mário?”
Rindo baixinho, a platéia inteira pergunta:
“O irmão do Sunda?”
Oraldo não se abala. Apenas responde:
“Que Sunda? Aquele da tribo dos Txucarramãe?”
Desorientada com a citação primitivista, a platéia exclama:
“Que Txucarramãe?!”
“Aquele que comeu a vaca da tua mãe!”, responde Oraldo Grunhevaldo, triunfante.

1981: O triunfo, porém, dura pouco. Oraldo é processado pela Atocha Trás por colocar a mãe no meio, infringindo a regra número um da academia: “Não coloque a mãe no meio senão nós colocamos no meio da sua”.

1982: Oraldo Grunhevaldo desiste dos trocadilhos para se dedicar às palavras de duplo-sentido. Hoje ele vive confortavelmente na casa que pertenceu ao Mário.




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