Historiadores investigam ancestrais dos africanos
O Estado de S. Paulo / Data: 12/1/2004
Mary del Priore e Renato Venâncio defendem que a África como continente é criação européia Beatriz Coelho Silva. A minguada bibliografia sobre a escravidão e sobre as pessoas trazidas para as Américas nessa condição ganha alento com o livro Ancestrais – Uma Introdução à História da África Atlântica, de Mary del Priore e Renato Pinto Venâncio, que acaba de sair pela Editora Campus. Eles foram colegas de pós-graduação na Universidade de São Paulo, são especialistas no período colonial e escreveram juntos O Livro de Ouro da História do Brasil, da Ediouro, que vendeu 40 mil exemplares. Agora, foram aos antecedentes do tráfico escravagista mundial e brasileiro para entender como e por que os negros têm um peso tão forte na cultura brasileira e mundial. Os dois consideram o negro africano tão colonizador quanto o branco europeu. Citam até a capa do livro, com reprodução de uma ilustração européia, em que dois negros carregam um terceiro numa rede, idêntica àquela em que os senhores da América colonial eram conduzidos por seus escravos. E lembram que a organização da casa-grande e da senzala, ou seja, a divisão das moradias do patrão e seus familiares e dos empregados, é herança africana. “Só que a escravidão era residual na Europa e tornou-se a base de tudo na América, especialmente no Brasil”, explica Venâncio. “O conhecimento da natureza e da fitoterapia que os negros tinham era muito superior ao do europeu”. Eles chegam a essas conclusões por vias paralelas. Para Mary, os portugueses e outros europeus encontraram reinos africanos com organização social e política tão avançada quanto a deles. “O Congo é um exemplo. Tinha hierarquia social bem definida, instituições políticas sólidas e o domínio de artes e tecnologias desenvolvidas”, comenta ela. “Vieram muito mais africanos que europeus para as Américas”, completa Venâncio. “Entre 1500 e 1800, chegaram ao Brasil 1,5 milhão de portugueses e 3 milhões de africanos”. O que o livro deixa claro em vários capítulos é que a África, como um só continente, é uma criação européia, contemporânea dos Grandes Descobrimentos, pois sua população não tinha (e de alguma forma ainda não consolidou) essa identidade. “Havia várias etnias e reinos que se mesclavam à medida que as populações cresciam. Por isso, os africanos são tão mestiços quanto os brasileiros”, conta Mary. “Nossa intenção foi contar a história de suas instituições e como era a vida material e cotidiana do africano”. A pesquisa teve de filtrar preconceitos seculares. O capítulo Africanos Vistos da Europa fala da conotação negativa que o negro tem desde a Idade Média e Mary lembra que os relatos etnográficos, a maioria encontrada em instituições fora do Brasil, são contaminados por essa idéia. “Mas a função do historiador é separar o joio do trigo”, ressalta ela. “Quase não há bibliografia brasileira, ao menos nenhuma tão alentada como os dois volumes da História da África, de Alberto Costa e Silva (ex-presidente da Academia Brasileira de Letras). Usamos algumas fontes primárias no livro, mas as bases são estudos já existentes, pois não fizemos um trabalho acadêmico e sim divulgação científica”, avisa Venâncio. Ancestrais atende a esse objetivo. Combina fartura de dados com um texto acessível, apropriado à leitura didática e à de lazer. Os dois escreveram separadamente, mas mantiveram contato estreito, embora ela viva entre Rio e São Paulo e ele,em Mariana, cidade histórica de Minas Gerais, onde fica a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). “A vantagem de escrever em parceria é de um mexer no texto do outro”, afirma Venâncio, lembrando que a literatura sobre história é a vedete do mercado editorial desde os anos 90. “Na década de 70, escrevia-se sobre sociologia; nos 80, sobre atropologia e a história permanece como foco de interesse desde então”. Para Mary, diretora do Arquivo Nacional durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o interesse pelo passado é uma forma de autoconhecimento. “O Brasil de Lula quer saber de suas origens e é preciso traduzir trabalhos acadêmicos para o público leigo”, explica ela. “Os jornalistas que escrevem sobre história têm contribuído muito nesse sentido. Em Ancestrais, buscamos um texto atraente, que atenda também a alunos do ensino médio. Além disso, o novo currículo integra a história da África à do Brasil, uma resolução que levará o aluno a se identificar com o africano. Isso não acontecia porque o negro nunca apareceu na história como herói”.