por Gioconda Bordon
Gazeta Mercantil / Data: 21/1/2005
Até nunca mais por enquanto mostra uma sofisticada sonoridade no texto
Diante da abundância de ofertas literárias de fácil digestão e baixa retenção, o livro de contos do escritor e jornalista Luís Antônio Giron é um convite sedutor para os leitores menos distraídos. O título de seu livro de estréia no gênero, Até Nunca Mais por Enquanto – lançado em novembro do ano passado pela editora Record – é curioso. Sugere a atmosfera dramática dos folhetins românticos, que, no entanto, é imediatamente desfeita na última palavra. Deste modo, do início até o fim de cada uma das pequenas histórias, o leitor terá que lidar com sentidos que se insinuam e se desfazem antes do previsto, terá que acompanhar o fluxo de consciência de personagens que se desdobram sem se deixar conhecer por inteiro. Música e literatura são as principais áreas de trabalho do escritor gaúcho, seja como jornalista, ensaísta ou ficcionista.
Ele é autor do romance, “Ensaio de Ponto”, publicado pela Editora 34 em 1998, de um estudo sobre a obra teatral do poeta romântico Gonçalves Dias, “Teatro de Gonçalves Dias”, editado pela Martins Fontes em 2004, e escreveu ainda vários ensaios sobre crítica musical. O mais recente, “Minoridade Crítica”, que saiu pela Ediouro também no ano passado, trata do processo de formação da crítica cultural no Brasil. A familiaridade de Giron com a música talvez explique, em parte, a sofisticada sonoridade de seu texto, e pode sugerir um caminho para a leitura deste seu primeiro volume de contos. E possível acompanhar o ritmo vertiginoso de seu texto como quem segue uma frase musical, sempre disposta a surpreender com mudanças de tom e com adiamentos de conclusão. Vale comentar alguns momentos dessa coletânea.
Em “Nimbado de Cloro”, o protagonista se apresenta como portador de uma neurose que o faz, como ele mesmo diz, preocupar-se com qualquer tolice. Refere-se a ela como uma nuvem de cloro que assola seu crânio. Ele, que pouco, ou quase nada tem para si próprio, a não ser a anunciada e excessiva concentração em problemas reais ou inventados, vê-se diante da tarefa de dar um destino ao cadáver de um suposto tio, ex-combatente da Guerra do Paraguai. O corpo está embrulhado em um papel celofane cor-de-rosa, com uma fita vermelha arrematando o pacote. Enquanto tenta despachar o encargo que lhe foi atribuído – encontrar o que fazer como o parente morto -, distribui o peso de sua mente preocupada, nomeando auxiliares como guardiões de suas angústias. Institui como procuradores para suas maquinações, as figuras que encontra no desenrolar de sua tarefa; um coveiro, uma enfermeira, até uns sujeitos malencarados, a quem ele chama apenas de os paraguaios.
“Nimbado de Cloro” está entre um dos melhores contos do livro. “Apologia de Betty Boop” é curto e denso como um pesadelo. Betty, além de cantar mal e de viver atrelada a um cão, insiste em mostrar as pernas feias, cheias de celulite. As imagens são perturbadoras e agarram-se à memória, assim como os sonhos de efeito prolongado. Giron trabalha sua linguagem com habilidade, combina momentos em que escolhe palavras rebuscadas, com outros instantes mais simples e diretos. Seus contos proporcionam ao leitor prazer sutil, que se abre quando ele se dispõe a encarar uma narrativa exigente, que pede atenção e zelo. Giron despreza a pontuação, ignora a lógica da sintaxe, e mostra que sabe manejar o fluxo de consciência de seus personagens. Uma técnica sedutora que cobra tributos altos, pois a armadilha do “non sense” está sempre pronta para engolir quem se entrega a ela sem o lastro e o talento necessário para dominá-la. Giron sabe onde quer chegar com sua prosa desafiadora.