Homem que é homem não é “café com leite”
Tweetpor Dora Lorch
Fiquei intrigada com o caso da Dedina, a mulher do prefeito, na novela “A Favorita”, da TV Globo. Ela traiu o marido com o melhor amigo dele e o prefeito a pôs para fora de casa sem direito a nada: sem dinheiro, sem bens, sem casa[1].
Ninguém na cidade (da novela) a ajudou, nem se colocou a seu lado, dimensionando o problema como algo que fere a ética, mas não é crime. Também na vida real ninguém a defendeu. Não li crítica alguma contra a postura do prefeito. O que é sério se pensarmos que as novelas influenciam e muito quem as assiste.
Será que prefeito não tem que seguir a lei? Será que vale o que Nixon[2] disse: “se o presidente fez não é contra a lei”?
Não estou defendendo a traição, mas a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Principalmente, o direito de a mulher decidir com quem quer se relacionar.
Na visão masculina (e muitas vezes na ótica feminina também), trair é crime gravíssimo, punido até com a morte. Mas isso só vale para as traições femininas, porque aos homens é dado o direito de trair. Aliás, na mesma novela, há o caso do político Romildo Rosa. Ele manteve um longo romance fora do casamento, tendo inclusive um filho com a amante, com quem decidiu se casar depois de ficar viúvo.
Trair é mais do que sexo. Trair pode ser o simples fato de não amar mais; de não querer mais viver ao lado do parceiro. Talvez, por causa dessa visão distorcida sobre a traição, estejamos vendo crescer o número de homens que matam suas “amadas” porque elas não querem mais manter o relacionamento ou batem nas mulheres por ciúmes e por “supor” qualquer tipo de deslize.
E qual a nossa reação diante disso?
Cansei de ver homens batendo em mulheres ou seduzindo adolescentes e as mães perguntando às filhas o que é que “elas tinham feito” para que isso acontecesse. Esse questionamento traduz nossos valores: os homens não têm culpa, coitadinhos, são as mulheres que provocam! As bruxas! São elas que seduzem, abusam, “pedem para apanhar”.
É claro que ambos têm responsabilidade numa relação, mas até que ponto alguém é responsável por apanhar ou por ser assassinada pelo companheiro? O que nós temos a ver com tudo isso?
A maneira como os pais reagem quando vêem a novela, os comentários que fazem na sala com a família, vão moldando a próxima geração. Se você achou “bem feito para ela ficar na rua depois que traiu”, está ensinando aos seus filhos que os homens tem mais direitos que as mulheres. Frisando que não há perdão para “crimes” dessa natureza. E não pareceria estranho a mim torcer para que o amante dela casasse com uma menina simples e “pura”. Ele também não teria responsabilidade pelo ato? Ou os homens são “café com leite”?
É preciso saber distinguir ética e crime. Saber que ela perdeu a confiança do marido, mas não perdeu os direitos de cidadã. Nem merece morrer por isso. Enquanto nós, mulheres, acharmos que alguém deve ser severamente punido porque traiu; enquanto acharmos que alguns homens são “café com leite”, estaremos concordando com o femicídio que está por aí. É preciso se revoltar contra esse pensamento para reduzir o número de casos de crimes dessa natureza.
Pense nisso!
oi homem do cafe