José Saramago, mestre da língua portuguesa
TweetO escritor reinventou a língua portuguesa e fez de seu estilo uma forma de ver o mundo
Entrevistei José Saramago em diversas ocasiões. O contato começou em 1991, ano em que ele se tornou mundialmente famoso pelo romance O evangelho segundo Jesus Cristo. A Igreja Católica condenou a obra porque Cristo era mostrado como um homem, e não como um ser divino. Saramago descrevia a deposição de Cristo da Cruz com uma linguagem alegórica, mas também crua e sarcástica. Lembro que estive com ele em um Roda-Viva em 1991 – e ele adorava polemizar. Quase não sorria, mas a gente podia sentir o seu bom humor oculto na rabugice. Nunca me pareceu vaidoso. Orgulhoso, sim, de contrariar as expectativas. Em geral, respondia com um “não” a qualquer pergunta. É como se exercesse a dialética para chegar a alguma conclusão.
Em 2007, encontrei-me com ele pela última vez (depois o entrevistaria por telefone e email) na casa do editor Luis Schwarcz. Vou ficar com seu olhar estrábico e incisivo por trás das lentes grossas, a voz grave e suave, a eterna impostura na conversação. Aquele homem alto e agitado gostava de bater papo. E foi assim que morreu, na ilha de Lanzarote, nesta sexta-feira (18) de manhãzinha, depois de tomar café e conversar com sua amada Pilar del Río, tradutora e secretária. Vai ficar a experiência única de ter acompanhado os últimos 20 anos da obra de Saramago, com ele por perto, sempre disposto a trocar ideias.
Suas convicções podiam parecer antiquadas, pois se dizia “um marxista hormonal”. Desde pequeno, havia se dado conta das injustiças sociais. Alistou-se aos 15 anos na Juventude Salazarista, para em seguida desenvolver uma concepção revoltada da civilização. Aderiu ao Partido Comunista Português, mas, segundo ele me disse, nunca se deixou subjugar às determinações de Moscou. Simpatizava com os marxistas, mas se considerava um “ateu militante”. Não moveu um fiapo em suas descrenças. Para um intelectual de sua geração, havia duas alternativas: o comunismo ou o fascismo. Preferiu o primeiro, até porque confrontou desde a juventude, como jornalista, o regime fascista de Salazar. Apoiou Fidel Castro, mas condenou as perseguições políticas em Cuba. Nesse sentido, Saramago se parece mais com os “marxistas líricos” da América Latina, como García Márquez e Jorge Amado, que com seus conterrâneos, que foram da esquerda à ultradireita.
Mas ideologia é o que menos importa no legado de Saramago. Bastava se envolver nas malhas de sua literatura para a gente se dar conta de que se tratava de um escritor de sotaque único. Seus livros, em especial seus romances, são sátiras ao mundo contemporâneo. Mesmo Memorial do convento (1982), que conta a história de um claustro obscurantista em pleno nascimento do Iluminismo, contém crítica social. Da fase áurea do escritor (anos 80 e 90), gosto especialmente desse livro, pelo desassombro com que reelaborou o português clássico de Antônio Vieira. Adorei A jangada de pedra (1986), uma alegoria a Portugal, nação sempre descolada do resto da Europa. Uma jangada barbárica solta no Atlântico, em busca de outras terras. O romance político e de ideias O ano da morte de Ricardo Reis (1984) é a epopeia da desilusão política da esquerda no século XX.
Acompanhei também de perto a fase final da obra saramaguiana, para mim a mais interessante porque desligada do compromisso histórico do intelectual. Como um Voltaire à portuguesa, o velho militante decidiu cultivar o seu próprio jardim na ilha vulcânica de Lanzarote, onde foi morar em 1993 com Pilar del Río. Afastado das discussões políticas de Lisboa, Saramago pôde exercer como nunca seu humor sarcástico. Os cinco Cadernos de Lanzarote estão repletos de tiradas paródicas e observações céticas sobre o mundo. Na peça Don Giovanni, ou o dissoluto absolvido (2005), Saramago inverte os sinais e converte don-juan em joguete nas mãos das mulheres. No romance As intermitências da morte (2005), ele reflete sobre a finitude. Vale a pena ler As pequenas memórias (2006), em que conta sua infância com a família nos campos do Ribatejo, onde nasceu, em 1922. É um texto sincero, direto, sem os barroquismos dos romances “áureos”. Este estilo tardio, conciso, é a marca de seus dois grandes romances finais: A viagem do elefante (2008), um conto alegórico à maneira das Mil e Uma Noites, em torno da ideia de choque de civilizações Oriente-Ocidente, e Caim (2009), em que mais uma vez reescreve a Bíblia, demonstrando a inocência de Caim na morte de seu irmão Abel. Saramago culpa Deus pelo crime.
Vou sentir falta do autor, e o jeito é se abrigar em sua obra. O legado de José Saramago foi reinvetar a língua portuguesa. Nesse sentido, ele foi tão importante para ela quanto Luís de Camões, Antônio Vieira e Fernando Pessoa. Saramago recriou a pontuação e a narrativa do português, e fez de seu estilo uma forma de ver o mundo. Talvez o velho militante anticlerical odiasse o termo, mas não posso evitá-lo: José Saramago é um dos papas da língua.