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Susana sempre detestou passar em frente à janela da casa vizinha.
Tudo por causa daquele assanhado. O homem está sempre na JANELA, à hora da manhã em que ela passa em direção ao trabalho - mais apressada naquele breve trecho do que em todo o resto do caminho – e, ainda que não diga nada, seu olhar libidinoso basta para assustá-la. É um olhar que parece persegui-la, que contempla os detalhes de seus passos, as pernas quando chegam e quando já se vão, que acompanha o movimento doce dos músculos. É um olhar que adivinha, como se fosse um raio X, que parece destecer os fios da blusa de lã que ela veste, abrir o zíper de seu vestido, descalçar as sandálias que ela VESTE nos dias mais quentes do verão.
Olhar desse jeito para uma mulher casada, pensa ela. O que é que este desavergonhado pensa que é?
Não sabe o nome do vizinho, se é casado ou solteiro (nunca viu mulher nenhuma a acompanhá-lo na janela). Nem quer saber: só o que sabe é do olhar desrespeitoso, invasivo, cheio de uma lascívia que se renova todos os dias, um olhar que lembra à Susana sua própria condição de mulher. E ela passa nervosa em frente ao homem, sem olhá-lo, suando um pouco. Tenta fingir que ele não está ali enquanto torce para que ele não perceba o seu tremor.
Pensa: se eu contasse para o meu marido, a tragédia estava feita. Aníbal não deixaria barato um desaforo desses. Aquele jeito pacato é só uma capa: se for preciso, Aníbal vira uma fera para defendê-la. Se eu contasse para o meu marido, pensa ela – todas as manhãs.
Mas não conta. Todas as manhãs, o mesmo olhar lascivo, todas as manhãs o mesmo tremor.
Menos hoje.
Susana cruzou em frente à janela do vizinho e ela estava fechada. Olhou o relógio para ver se não se atrasara, mas não: o tempo era o mesmo de sempre. Voltou uns passos, fingindo para si mesma que esquecera alguma coisa – a sombrinha, a carteira de identidade -, mas a janela continuou fechada. A janela fechada e nada daquele olhar que, lúbrico, lhe seguia no caminho da manhã. Postou-se em frente à janela, afrontosa, quase esperando ser olhada, mas o homem não apareceu.
E então Susana sentiu um tremor diferente. Um tremor que nunca antes havia sentido. E então se deu conta que sentia falta.
Aquele assanhado, pensou ela, enquanto seguia já atrasada para o trabalho. Se amanhã ele estiver novamente na janela, aí eu vou lhe dizer umas verdades