Agora eu poço tudo!
por Edson Aran
Consegui minha licença poética!
Foi difícil. Apresentei certificado de bons antecedentes literários, CPF, PIS, RG, DIU e PQP. Paguei um por fora pra meia dúzia de burocratas pra coisa andar, mas agora minha licença poética está aqui, bem em cima da minha mesa.
Agora eu posso escrever a “a chuva choveu no molhado”. Agora eu posso fazer que nem baluarte da MPB e escrever “beija eu, lambe eu e chupa eu”. Agora eu posso fazer minha própria concordância verbal e meu próprio plural, como se fosse um presidente do terceiro mundo: “vota ni nóis que a gente é mais melhor!” Agora eu posso usar metáforas pitorescas para secreções humanas, tipo “leite derramado” ou “mingau de aveia esparramado”.
Tá tudo na minha licença poética, exclusive o direito de usar “tá” em vez de “está”. Exclusive o direito de usar “exclusive” quando quero dizer “inclusive”. Eu não preciso mais de métrica, eu não preciso mais de gramática, eu uso mesóclise onde bem-mo-entendo! Eu uso ênclise até em substantivo-lhe! Eu ponho a Próclise para lavar, passar e cozinhar. Próclise da Silva. Veio do Piauí, coitada. Minha licença poética me permite ainda inventar palavras como se eu fosse um poeta concreto ou um bêbado no último estágio do porre, isto é, um bebágiorre. Ou um pocreto. Uma bosta dessas.
A licença poética também me permite escrever palavrões. Tipo assim: bosta. Cocô. Titica. Tiririca. Xixi. Mas bom mesmo é bosta. O coronel Ariano Suassuna diz que adora a palavra “pedra”. Eu já gosto mesmo é de “bosta”. Bosta é uma palavra cheia, redonda, sonora. Para pronunciá-la corretamente é preciso encher a boca: bos-ta!
Com uma licença poética carimbada e protocolada é assim: você pode escrever qualquer bosta que está valendo. Você pode praticar a literatura quando quiser, mesmo que seja apenas duas vezes por mês e usando meias.
Adquira ainda hoje a sua licença poética, freguesa. Esqueça as regras gramaticais e diga adeus às concordâncias verbais. E escreve qualquer bosta aí que tá valendo até jabuti-lhe.
Edson Aran (@EdsonAran) é escritor, jornalista, cartunista e desde 2006 é diretor da redação da Playboy. Publicou Na Kombi, Antologia, Barba Negra, Leya Cult, 2010; Delacroix escapa das chamas, Record, 2009; O Imbecilismo – e outros textos de humor, Geração Editorial, 2005; Blônicas, Antologia, Jaboticaba, 2005; Conspirações – Tudo o que não querem que você saiba, Geração Editorial, 2003; Quânticus – O Destruidor de Mundos, Opera Gráfica, 2002, A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos, Nova Alexandria, 2001; Aqui Jaz – O livro dos Epitáfios (com Castelo), Ática, 1996.