Henrique Schneider
Seria a primeira noite no apartamento novo, e Cleber pensava – ainda no emprego e não sem certo desânimo – na correria que seriam as arrumações, as caixas e pacotes a desfazer, as tentativas enjambradas de decoração da sala, o indefectível prato quebrado na hora de guardar. Obrigações a serem cumpridas pouco a pouco, todas as noites um avanço: não iria se esfalfar numa vez só, decidiu, enquanto, trabalho encerrado, já chegava em casa.
Quando abriu a porta do apartamento novo, tomou um susto e voltou novamente ao corredor, a certificar-se de que era ali mesmo que morava. Olhou o número logo acima do olho mágico e confirmou: estava se mudando para o quatrocentos e oito e aquela era a porta do quatrocentos e oito. Tudo certo.
Mas além da porta, nada o esperava da forma como imaginava: os móveis estavam todos impecáveis em seus lugares, não havia caixas nem pacotes atravessados no meio da sala, nem cacos de copos ou pratos espalhados pelo assoalho. Nada. Além disso, a sala estava do jeito que ele desejava, decorada como havia pensado sem saber se teria o talento de executá-lo. As coisas todas em seus lugares.
E, sentada no sofá, a mulher parecia apenas aguardá-lo com doçura, copo de uísque nas mãos. Não parecia haver trabalhado.
“Mas o que é isso?” – perguntou ele, surpreso (agradavelmente surpreso).
“Dei uma agilizada na mudança, coloquei as coisas todas em ordem. Sabia que ias chegar cansado e resolvi te fazer esta surpresa. Gostou?” – perguntou ela, enquanto lhe estendia o copo.
“Gostei.”
“E ainda sobrou tempo para fazer um jantarzinho especial. Não é porque é a nossa primeira noite no apartamento que a gente tem que comer sanduíche.” – e pegou-o pela mão, delicada, enquanto o conduzia à cozinha, onde a mesa já estava posta e a garrafa de vinho respirava aberta sobre a pia.
“Senta.” – ela ordenou.
Cleber sentou-se enquanto a mulher já começava a servi-lo e o aroma de alecrim, vindo das panelas, invadia com delícias a cozinha toda arrumada. Depois, como os olhos dela lhe diziam que comesse e aquele prato cheirasse a banquetes indizíveis, resolveu jantar.
E no jantar, pensou ele, conversariam coisas amenas, agradáveis, um contaria ao outro o seu dia.
Só depois, decidiu Cleber, iria preocupar-se com o que estava acontecendo, com esta revolução doce em sua vida mesma, esta mulher desconhecida e bela aparecendo de repente em sua vida triste de solteirão.