Notícias de jornal

Henrique Schneider

Absorto na leitura aborrecida do jornal, o velho enxotava sem perceber os pombos que, na expectativa inútil de alguns grãos de milho, se aproximavam do banco de praça em que este sentava-se, sozinho, todas as manhãs. Pouco prestava atenção às notícias, o velho, cingindo seu interesse às altas do preços dos remédios e das comidas, seus poucos prazeres e necessidades. No mais, apenas passava o tempo ao sol, aquecendo as juntas antes de voltar ao quartinho de pensão em que, há tantos anos, gastava seus dias.

Quando o desconhecido sentou-se placidamente ao seu lado, deu-lhe uma breve olhada e pareceu perceber naquele rosto alguma lembrança, mas logo voltou à leitura. O desconhecido, então, espichou o pescoço, buscando alcançar com os olhos as notícias que moravam no jornal do velho. Este, incomodado, afastou-se uns centímetros no banco e fechou um pouco o jornal, de modo a dificultar a leitura a qualquer olhar que não fosse o seu. Mas o outro não percebeu este movimento.

“Viu a notícia do homem encontrado morto?” – perguntou.

“Não.” – respondeu o velho, cortante: não precisava da companhia destes malucos que puxam assunto na rua.

“Morreu de solidão.” – o desconhecido pareceu não ouvi-lo.

“Não li a notícia.” – o velho ainda tentava terminar o assunto sem começá-lo.

“Solidão. Foi de solidão que ele morreu.” – ele falava como se consigo mesmo. – “Mas a notícia só diz que ele foi encontrado morto na rua. Como se alguém morresse de nada.”

“Já disse que não li a notícia!”- exclamou o velho. – “E se morreu alguém, problema dele. Não tenho nada a ver com o azar dos outros.”

“Está na página policial, uma notinha no rodapé.” – o desconhecido prosseguiu, imperturbável. E depois, como a convencer-se da tristeza de tudo aquilo: – “Morrer de solidão, imagina!”

Para terminar de vez aquela conversa absurda, o velho abriu a página de polícia, e não encontrou ali qualquer notícia do homem solitário. Estendeu o jornal ao recém chegado, desafiador. O outro buscou o periódico que o velho lhe oferecia, e pareceu surpreender-se com a ausência da informação que ainda há pouco espalhava.

“Que dia é hoje?” – perguntou.

“Domingo.” – respondeu o velho.

“Desculpe, pensei que fosse segunda-feira.”

Disse isso e desapareceu no ar, no mesmo instante em que o velho percebia, subitamente aterrado, que a lembrança provocada pelo rosto do outro era a do espelho em que se enxergava todas as manhãs. E foi então que começou a sentir o formigamento no peito.




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