O caso do assassinato literário

Outra investigação de Mercutio Pilgrin

por Edson Aran

Mercutio Pilgrin acendeu o charuto e olhou a neve acumulada lá fora. A pequena pensão estava totalmente isolada da civilização. Os oito hóspedes o fitavam com expressão enigmática.
Pilgrin apontou o cadáver sobre o tapete da sala.
“Eu já sei quem matou madame Escargot.”
“Quem?”, perguntou o inspetor Canard que, coincidentemente, era um dois oito hóspedes.
“Edmond Dantès! Desde que foi denunciado e preso como bonapartista, Edmond Dantès busca vingança! E finalmente, nesta casa isolada pela neve, ele conseguiu o que queria: matou madame Escargot! Sim, ele mesmo! Edmond Dantès. Ou devo dizer… o Conde de Montecristo?!”
Todos os hóspedes se entreolharam num silêncio constrangido.
Então o inspetor Canard disse:
“Pilgrin… Edmond Dantès é um personagem literário!”
Mergutio Pilgrin assoprou um anel de fumaça.
“É verdade, meu caro Canard. Não pode ter sido ele. Então foi… o índio Peri!”
“Maldito Mercutio Pilgrin!”, gritou um dos hóspedes, jogando fora o bigode postiço e o chapéu coco, revelando o cabelo em forma de cuia, adornado por uma pena de periquito.
Pilgrin explicou a trama macabra:
“Você enganou a todos fingindo que era coadjuvante de uma história de detetives, índio Peri. Até madame Escargot perceber que você só falava tupi-guarani!”
O silvícola foi imediatamente algemado pelo prestativo inspetor Canard. O policial, então, perguntou ao detetive:
“Como você descobriu que o índio Peri estava entre nós, Pilgrin?”
“Simples, meu caro Canard: ninguém consegue viver num romance do José de Alencar!”

Edson Aran (@EdsonAran) é escritor, jornalista, cartunista e desde 2006 é diretor da redação da Playboy. Publicou Na Kombi, Antologia, Barba Negra, Leya Cult, 2010; Delacroix escapa das chamas, Record, 2009; O Imbecilismo – e outros textos de humor, Geração Editorial, 2005; Blônicas, Antologia, Jaboticaba, 2005; Conspirações – Tudo o que não querem que você saiba, Geração Editorial, 2003; Quânticus – O Destruidor de Mundos, Opera Gráfica, 2002, A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos, Nova Alexandria, 2001; Aqui Jaz – O livro dos Epitáfios (com Castelo), Ática, 1996.




Muito bom esse final! Bem emblemático do que representa um livro escrito no século 19. Excesso de adjetivação, sequências pouco dramáticas, ênfase nas palavras e não no conflito.

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