Chega de pisar em casca de banana
por Edson Aran
Humor, já descobri, não leva ninguém a parte alguma. Almodóvar, por exemplo. A primeira fase do diretor, pirada e descompromissada, é praticamente ignorada pela crítica que prefere, claro, a obra posterior e dramática da rotunda matrona. Crítico de cinema é tudo esquisitão, você diz. É vero. Mas veja o Quixote. Uma obra-prima do humor. Todos ressaltam, no entanto, a melancolia, aspecto sombrio e menos festivo de Cervantes.
Joyce foi mais esperto ao pontilhar sua paródia da Odisséia com malabarismos linguísticos e reflexões sobre a banalidade quotidiana. Ulisses, convenhamos, é o Seinfeld da literatura: um tratado sobre o nada. Mas que nada! Sai da minha frente que eu quero passar, o samba está animado e eu quero é sambaaaaar! Arrã! Perdão, leitor.
O que eu dizia, antes de ser rudemente interrompido, é que, nas próximas edições deste site, o drama é que vai dar o tom. Chega de escorregar em casca de banana. Vou virar um autor russo do século 19. Agora é tudo conde Vlonsky, mulher se jogando embaixo de trem, exércitos napoleônicos avançando, essas coisas. Aguardem, para breve, longa narrativa sobre a negação da felicidade num mundo sem Deus ou razão. Afinal, respeito é bom e eu gosto. Também quero meu Jabuti.
E AGORA ALGO TOTALMENTE DIFERENTE…
A mulher que você não come
Por Olavo Bilau
A mulher que você não come
É chama que te consome
Assunto que não se encerra
Tesão que não se desfaz
A mulher que você não come
É guerra em tempo de paz
É coisa que não se esquece
É trem que jamais se vai
É aquela que não perece
Que incomoda e amofina
A cabeça de qualquer rapaz
Mulher! Isso não se faz!
Isso é poema que não rima
Você não fode – e nem sai de cima
Edson Aran (@EdsonAran) é escritor, jornalista, cartunista e desde 2006 é diretor da redação da Playboy. Publicou Na Kombi, Antologia, Barba Negra, Leya Cult, 2010; Delacroix escapa das chamas, Record, 2009; O Imbecilismo – e outros textos de humor, Geração Editorial, 2005; Blônicas, Antologia, Jaboticaba, 2005; Conspirações – Tudo o que não querem que você saiba, Geração Editorial, 2003; Quânticus – O Destruidor de Mundos, Opera Gráfica, 2002, A Noite dos Cangaceiros Mortos-Vivos, Nova Alexandria, 2001; Aqui Jaz – O livro dos Epitáfios (com Castelo), Ática, 1996.