por José Castello
Valor Econômico / Data: 10/12/2004
Giron mostra que o ato de criar não é fantasioso, mas, sim, o encontro de novas maneiras de avançar sobre o real e abocanhá-lo
O contato com a realidade, sua captação, não pode mais seguir os moldes da grande literatura do século 19. Isso não significa que a realidade tenha deixado de contar, ou que ela se tenha tomado inacessível. Mas, sim, que hoje a observamos numa ótica mais complexa,que exige instrumentos mais e mais sofisticados. O título do livro de Luis Antonio Giron , Até Nunca Mais Por Enquanto (Editora Record), um paradoxo em si, é uma espécie de síntese do espírito que vigora em suas narrativas. A frase é citada por vários personagens, tomando-se um elo secreto – exposto na capa de modo quase agressivo – a ligar sujeitos e situações que, na aparência, se desconhecem. Há no livro de Giron um caráter de pesadelo, uma vez que a instabilidade e mesmo a incoerência que vigoram na realidade são apresentadas sem qualquer atenuante. O mundo real não é assim mesmo? Estamos em casa, ligamos a TV – e surge um homem-bomba no Oriente Médio. Acessamos distraidamente a internet – e somos atacados por um vírus que se disfarça em mensagem de amor. Nada de caveiras, fantasmas ou monstros, como no ingênuo romance “de terror”.
O horror contemporâneo está nas pequenas coisas, a monstruosidade é escorregadia e quase invisível, e é esse novo terror – tão letal quanto o dos homens envoltos em explosivos – que Giron vem captar. São contos que, na aparência, se detêm na franqueza da vida real e na singeleza dos episódios que a compõem. Mas que não só a fisgam de modo inesperado, como esse fisgar corresponde, de fato, a uma nova noção, mais ampla e perturbadora da própria realidade. Nunca é demais lembrar de Clarice Lispector que, em “A Paixão Segundo G.H.”, leva sua atordoada personagem a dizer: “Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade”. Criar não é fantasioso, ou uma atividade arbitrária – mas sim encontrar, como faz Giron, novas maneiras de avançar sobre o real e de abocanhá-lo. E Luis Antonio Giron, com a meticulosidade de um clínico experiente, mas a disposição para a surpresa de um menino, se põe a trabalhar. Lá está, a cada conto, a velha realidade, que julgávamos tanto conhecer. Só que os espelhos já não funcionam, e mesmo mecanismos mais complexos, como a literatura, nem sempre dão conta de uma realidade que é, em vez de simplicidade e nitidez, instabilidade e caos. Para sincronizar com esse mundo despedaçado, os relatos de Giron são, eles também, ariscos e distorcidos, e isso simplesmente porque a realidade é, ela também, arredia e desvirtuada. Giron exercita, em seus contos, um humor sutil, tirado não da piada, ou do jogo de palavras, mas do inesperado. Com o humor, ele se distancia, mas também se aproxima de seus personagens, apanhando-os naquilo que têm de mais humano e, portanto, de inconseqüente, imprevisível, despropositado até. Seu absurdo não se esgota no ataque à razão; em vez disso, se apóia nas nervuras do real, para desafiá-las e expor seus limites e insuficiências. Fabrício Carpinejar chama a atenção dos leitores para o “humor macabro e a excentricidade visual” dos relatos de Luis Antônio Giron, mas, ao mediá-las pelo lirismo, Giron não faz do macabro um instrumento para o susto ou o horror, nem da excentricidade um caIdinho para o exotismo, ou o pernóstico. Macabro, porque a vida é sempre por um fio; excêntrica, porque nunca há centro, estamos – mesmo os mais iludidos – sempre à beira do abismo. Os segredos ocultos da Guerra do Paraguai, o assédio às crianças através da mídia, o sexo grupal, as agruras de um tenor pedófilo, a visita de militares a uma escola são não peças de riso fácil, ou de choque gratuito; mas instrumentos cortantes, que rasgam a realidade para ampliá-la e para exibir seus lados mais patéticos e insuspeitos. A escrita de Giron não é espontânea, ou guiada por impulsos desconhecidos, como a literatura dos surrealistas. Ele é um escritor que tem plena consciência do peso ético de seu ofício. Se seus contos partem do banal e chegam ao monstruoso, é porque, só porque, eles emparelham com uma realidade, ela também repetitiva, mas cheia de surpresas devastadoras. O livro de Giron nos devolve a esperança de que a literatura ainda guarda não só uma potência, uma potência vital, mas também uma função insubstituível: a de desvendar aspectos mais secretos do mundo que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis.