O futuro do livro, segundo Umberto Eco
TweetVou confessar a você: não suporto mais a discussão sobre se o livro vai sobreviver aos e-books. É como discutir o futuro do prego. Será que em mil anos a humanidade estará usando pregos? Sem dúvida. E podemos usar para o prego o que os nossos sábios bibliófilos têm usado há alguns anos para descrever a superioridade tecnológica do livro no papel: como o livro, o prego é prático, não precisa de energia para funcionar e provou sua eficiência desde antes dos egípcios. Não haverá nenhum prego digital capaz de abolir o prego de aço. Ora, a discussão sobre o futuro do livro me parece tão inútil quando discutir o prego. Mas têm mobilizado os intelectuais.
Duas obras chegam às livrarias nesta semana e alimentam a discussão que antigamente chamávamos de bizantina: A questão dos livros – passado, presente e futuro (Companhia das Letras, 168 páginas, R$ 42,50), do professor americano Robert Darnton (à dir.), e um dos livros mais esperados da temporada: Não contem com o fim dos livros (Record, 272 páginas, R$ 39,90, conversas de Umberto Eco (à esq.), Jean-Claude Carrière e Jean –Philippe de Tonnac).
Darnton reuniu uma série de artigos que publicou principalmente do The New York Review of Books. São artigos antigos, que parecem realmente datados, pois a aparição de novos modelos de e-reader e o avanço do mercado de livros eletrônicos tornou a discussão mais complexa que a principal da coletânea: o perigo do monopólio do Google sobre o mercado mundial de livros. Se isso acontecer, a Organização Mundial do Comércio terá de resolver o problema. O livro de Darnton é interessante para um arqueólogo diigital do passado recente.
O volume de Eco e Carrière é um bate-papo com o jornalista Jean-Phillipe de Tonnac sobre o assunto do livro-prego. O semioticista italiano e o jornalsita e cineasta francês gastam seu latim clássico para defender a sobrevivência dos livros de papel. Claro que os dois são intelectuais admiráveis, e tudo o que dizem funciona como iluminação. Para Eco, todo livro publicado hoje é um “pós-incunábulo”, ou seja, um pós códice medieva. Eles abordam a questão da memória, que a internet e o livro digital estariam destruindo; fazem um elodio à burrice; tecem considerações sobre os livros que não lemos nem leremos; e, por fim, o que fazer de sua biblioteca depois de sua morte?
É claro que o livro (e o prego) não terminarão. O que está em jogo não é para onde vai a palavra (ela pode ser digital, no papel ou mesmo na pedra), e sim o futuro da leitura. Como ela se transformará com o excesso de informação e digitalização. E isso, parece, ainda é uma dúvida.