O medo

Henrique Schneider

Fernando andava despreocupado e distraído pela noite da cidade grande, como se morasse em outro tempo, quando a voz vinda da parede o mandou parar, anunciando o assalto. Na ponta da voz, um revólver brilhava sua ameaça.

Ao escutar a ordem, ele deu-se conta de onde e quando estava, das notícias de violência empilhando páginas de jornais, da realidade existindo muito mais dura do que nos filmes, de que estas coisas não aconteciam apenas com os outros – e engasgou em seu terror.

O homem repetiu o mando, enquanto já acertava uma coronhada na nuca de Fernando, que fê-lo dobrar-se.

“Calma, calma!… ” – ele tremia em seu pedido. – “O senhor fique calmo que eu entrego tudo.”

E entregou ao homem a carteira, o relógio, o anel de formatura, o talão de cheques, o cartão de crédito, o sapato marrom, a camisa que comprara há pouco, os óculos de grau.

“Não olha prá mim!” – gritou o ladrão, e Fernando fechou os olhos no mesmo instante.

“E agora? O que é que o senhor quer que eu faça?” – o pavor.

“Deita no chão e de olho fechado, cara na calçada, conta até cem! Se levantar a cabeça, morre!”

E Fernando obedeceu.

****

As horas passaram e o dia acordou. A rua deserta encheu-se de movimento dos que vão para o trabalho e que se surpreendem – não a ponto de diminuir o passo – com aquele homem deitado no meio da rua, olhos fechados como se rezasse, tremor do corpo como se estivesse em transe. Mas o medo: Fernando não consegue perceber esta luz matinal que agora o rodeia , aterrado apenas com a certeza de que o homem ainda não foi embora, enquanto conta até cem talvez pela centésima vez.




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