O nascimento da crítica

por Fernanda Buarque de Hollanda
Jornal do Brasil / Data: 12/6/2004

Giron analisa os primeiros artigos sobre espetáculos musicais no Brasil

Machado de Assis, José de Alencar e Gonçalves Dias são nomes que remetem diretamente o leitor a obras consagradas da literatura nacional. O valor literário inquestionável de seus romances e poemas leva a crer que a produção desses autores foi marcada desde o início por um merecido reconhecimento. Mas nem sempre foi assim. Pertencentes a geração pioneira de críticos musicais brasileiros, esses escritores, assim como outros jornalistas, sofreram preconceito por produzirem artigos considerados superficiais, relegados aos rodapés das publicações da imprensa nacional.

O preconceito e o desinteresse por parte da imprensa e do mercado editorial – mesmo a publicação das obras completas de autores como Gonçalves Dias desprezou muitos desses artigos – já podem ser considerados retaliados. No livro Minoridade crítica, o renomado crítico musical Luís Antônio Giron analisa o trabalho de seus colegas mais antigos, os autores de crônicas sobre óperas e espetáculos musicais realizados no período de 1826 a 1861, no Rio de Janeiro. Giron demonstra que mesmo se tratando de uma atividade descompromissada, realizada por diletantes e não por profissionais com um conhecimento amplo sobre arte, a crítica produzida naquele período teve grande importância para a memória e para o progresso musical.

Além da importância para o desenvolvimento artístico, ao tocar em assuntos tão supérfluos quanto os belos ornamentos da coroa utilizada pela cantora lírica Rosine Stolz, durante sua apresentação musical, e tão importantes quanto o surgimento de um compositor lírico brasileiro, Carlos Gomes, autor do musical Il Guarany, as crônicas retrataram os costumes, hábitos e do pensamento da sociedade brasileira pós-colonial. Era nos folhetins – termo então utilizado para publicações dedicadas às críticas musicais – que os articulistas expressavam suas posições estéticas e políticas.

Na defesa ou na crítica de determinada prima-dona, os folhetinistas revelavam posturas nacionalistas ou colonialistas, por exemplo. Semelhante a seus antigos colegas, que se utilizavam de temas e textos ”menores” e realizaram alguns dos documentos mais significativos da história cultural brasileira, o autor de Minoridade crítica faz de seu livro um importante estudo da atividade crítica e do surgimento dos cadernos culturais no Brasil a partir de um material menosprezado pela historiografia musical.

Originalmente uma dissertação em musicologia histórica, apresentada em 1999 à Escola de Artes e Comunicações da USP, a obra de Giron é bem-sucedida em revisitar e revalorizar as crônicas musicais produzidas entre a Independência e o Segundo Reinado do Brasil. O mérito de pesquisador, analista e intérprete do conteúdo dos folhetins é acrescido ao grande potencial de organizador do autor de Minoridade. A seleção e a publicação da antologia de críticas, que serviram de base para a realização da dissertação, permitem ao leitor acompanhar mais de perto a evolução estilística dessas críticas e entrar em contato com os primeiros cadernos culturais, uma novidade no jornalismo daquela época.

A inclusão da antologia também possibilita saciar a curiosidade em relação aos primeiros exemplares da produção literária de autores bastante conhecidos, como o dramaturgo Martins Pena. Divididas em sete períodos dentro da fase analisada, as críticas publicadas revelam a inexistência de um padrão comum, o que proporcionou uma grande diversidade de gêneros textuais, que assumiram formas de resenha, ensaio, crônica e afins. Uma liberdade gozada por seus escritores que só poderia ocorrer mesmo no período inicial de consolidação de uma nova atividade, de um novo estilo jornalístico, como a crítica musical. É justamente nessa liberdade que se pode constatar a habilidade e o talento peculiar dos folhetinistas. Seja na capacidade de Machado de Assis de resistir ao estilo borboleteante de seus colegas, buscando crônicas mais sintéticas, ou por outro lado, na generalidade descritiva do texto de José de Alencar. Em ambos, o leitor pode verificar um prenúncio estilístico de suas consagradas obras. Além de apresentar uma rica antologia de textos, o livro traz ainda uma seleção iconográfica interessante, com fotos do escritor Gonçalves Dias e da cantora lírica Rosine Stoltz, caricaturas sobre o universo musical e imagens de alguns folhetins. Esse recurso complementa a ampla contextualização presente na pesquisa do autor.




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