Quando soube que nunca mais poderia levantar-se daquela cadeira e que suas pernas já não eram mais pernas, o Palhaço sentiu que o mundo lhe caia ao lado: como viver sem as cambalhotas, as corridas cheias de atropelos, s saltos, as piruetas? Mais: como viver sem o riso que tais estrepolias causavam? Um palhaço sem pernas não consegue ser palhaço.
Mas não, decidiu ele. Não eram as cambalhotas que arrancavam os risos calorosos da platéia: era ele mesmo, sua graça INDENE, a cara pintada, o nariz de borracha, a peruca que o deixava ainda mais careca, a gravata vermelha que espirrava água em cada novo incauto, as suas piadas em cima da hora, as gagues no tempo certo, as caretas ………. As pernas, pensou, eram apenas uma parte do palhaço – mas não eram o palhaço.
Então era seguir adiante: a cadeira de rodas serviria como seu par de pernas também no palco.
Quando apareceu em cena pela primeira vez montado em sua cadeira rodante, o público pareceu engolir uma espécie de exclamação muda, uma respiração suspensa, sem saber se devia rir ou não.
Foram alguns segundos, não mais. Ele olhou para a platéia com o mesmo estranhamento inicial com que a platéia o olhava. Naquele instante, sentiu mesmo que lhe faltavam as pernas e achou que talvez fosse melhor desistir.
Mas no instante seguinte percebeu a risada que já se formava no primeiro banco, onde um alemãozinho de seus cinco ou seis anos, sem saber qualquer coisa sobre cadeiras de rodas, entendia que ….
E então soltou a piada, fez a careta. E o público inteiro riu, pronto para a próxima graça: o Palhaço estava ali, inteiro.
Porque o show tem que continuar. Mesmo quando o Palhaço não estiver mais, o show tem que continuar.