O que fazer para ser aceito?

por Dora Lorch

Quando André chegou, todos notaram: era um adolescente negro muito bonito, tímido, porém, quando sorria dava para perceber seu charme. Ele fora encaminhado porque estava muito agitado na sala de aula, não conseguia prestar atenção e, portanto, não sabia ler e escrever, nem fazer contas. O diagnóstico médico dizia que ele tinha “retardo mental leve”.

— Você sabe escrever meu nome? – Perguntei e sugeri Dora, considerando que seria um exemplo fácil.

— Não. Eu só gosto de escrever sobre assuntos étnicos.

Estava decidido: não havia retardo mental. O que será que o impedia de aprender?

Durante a consulta, a mãe se senta meio torta e tenta não falar nada, mas eu insisto. Pergunto sobre o menino. Aliás, observei que ela também é excepcionalmente bonita.

— Meu filho é muito agitado. Ninguém “agüenta ele”!

— Como assim?

— Outro dia ele ‘encheu tanto a paciência’ do meu irmão, que o tio quase o atirou da laje.

— Como?

— É isso mesmo que estou dizendo: ele quase o atirou da laje por tê-lo tirado do sério.

— Espera aí, quer dizer que seu irmão quase o jogou da laje, quase o matou, porque ele é chato?

A mãe começou a chorar.

Seis meses depois, durante minhas férias, soube que o menino tinha sido internado com suspeita de traumatismo craniano. Motivo: espancamento. Adivinha de quem?

Claro que tanta agressão contra um menino de nove anos tem conseqüências drásticas para ele e para os outros. Então, André começou a ser agressivo, a aterrorizar as professoras e a todos com quem convivia. Em outras palavras, repetia com as pessoas o que vivia em casa. Como ele era grande para sua idade, causava medo por onde passava. Mau sinal: estava aprendendo a conseguir o que queria por meio da força.

André tinha muitas histórias e conto aqui uma delas:

A mãe fora chamada na escola. Ao passar pelo corredor, uma menina perguntou:

- Você é a mãe do André? Deve ser muito rica! Ele está distribuindo notas de 1 real pela escola e disse que me daria muito mais se eu ficasse com ele.

A mãe, desesperada, foi me procurar. Perguntei ao menino se a história era verdadeira. Ele confirmou.

Em seguida, questionei:

— Acha que alguém vai ficar com você somente porque pode pagar por isso? Então, quando acabar o dinheiro, você vai ficar sozinho?

André abaixou a cabeça e disse:

— As meninas riem de mim…

— Engano seu. As meninas riem para você. Você é um rapaz muito bonito e tem qualidades para alguém gostar verdadeiramente de você.

Este menino era filho de uma ligação fortuita entre dois parentes. Como costuma acontecer, a mãe fica com os filhos, com a responsabilidade e a pecha de promíscua. Sobra para o pai ser “o bom”, aquele que faz e acontece mesmo que abandone sua cria. Mas isso tem mudado com o advento do exame de DNA.

O problema é que as crianças mesmo muito pequenas percebem que não são aceitas e reagem a esta sensação. A pessoa profundamente rejeitada passa a vida sentindo que tem de fazer qualquer coisa para ser aceita. E, mesmo quando aceita, fica insegura se a aceitação é para valer ou passageira.

Para um crescimento saudável, a criança e o adolescente precisam sentir que são importantes para alguém, que fazem diferença. E, principalmente, que estamos dispostos a lutar por eles.

Mesmo que este alguém seja um amigo, um vizinho, ou você.

* Todos os casos relatados por mim são verídicos, mas os nomes e dados pessoais foram alterados para salvaguardar a identidade dos envolvidos.




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