Henrique Schneider
— O senhor está despedido, seu Moacir.
— Como, assim?
— É que, por causa da crise, a empresa está tendo que dispensar alguns de seus colaboradores mais antigos. E o senhor, seu Moacir, infelizmente, foi um dos escolhidos por nossa equipe de estratégia financeira.
— Não foi isso o que eu perguntei.
— Como assim?
— Eu quero saber porque é que vocês estão me chamando de ‘senhor’! De “seu Moacir”! Nunca ninguém me chamou de ‘senhor’ nesta fábrica, nem de ‘seu Moacir”. Foi sempre “tu” e “Moacir” o tempo inteiro. Então, que invenção é essa de ‘senhor”, agora?
— É que, entenda bem, a empresa sabe que este é um momento difícil para o senhor…
— Olhaí! De novo, este ‘senhor”!
— …e então achamos que se trata de uma ocasião em que a pessoa precisa de, digamos, um respeito extra. Uma espécie de conforto nesta hora tão ingrata para o senhor e para a empresa.
— E vocês pensam que resolvem tudo me chamando de ‘senhor”? Mas que brincadeira é essa? Me botam na rua sem mais nem menos, mas acham que me respeitam só porque me dão senhoria!
— Seu Moacir, o senhor se acalme!…
— Me acalmar por que, Maricota? Mas se eu estou despedido!..
— Meu nome não é Maricota. O senhor não me chame assim.
— E o meu nome não é ‘seu” Moacir. Se vocês podem inventar um novo nome para mim, eu também posso inventar um nome para vocês todos. Entendeu, Maricota?
— Sim, seu Moacir. Faça como quiser. O senhor só assine estes papéis, para podermos fazer sua rescisão e dar seguimento à fila.
— Tudo ‘senhor’ aí atrás? Ou tudo pé rapado, que nem eu?
— Calma, seu Moacir. A empresa sempre lhe respeito. Isso. Assine ali neste espaço, ao lado do xis, e o senhor fica liberado de cumprir o aviso prévio.
— Pronto, Maricota. Assinado.
— A empresa sente muito não poder contar mais com seus serviços, seu Moacir. Mas a crise, o senhor sabe…
— Sei, Maricota. Tudo bem. Pegaí o papel.
— Seu Moacir, o senhor me desculpe.
— Tudo bem, não tem problema, eu já disse. Até já estava me acostumando a ser chamado de ‘senhor’.
— Não, o senhor me desculpe, mas é que estou vendo que vai ser preciso assinar um novo aviso prévio.
— Mas por que isso, Maricota?
— Não precisava ter assinado ‘senhor Moacir”, seu Moacir! O senhor não acha que eu mereço um pouco mais de respeito?