Henrique Schneider
Há dias este sonho, este mesmo recorrente sonho.
Ele enfrenta um bando de indomados miúras, touros ferozes e rápidos, que percorrem os cantos inteiros da arena, levantando areia seca e brava a cada nova arremetida. São onze, quinze, vinte – o número pouco importa, e a verdade é que cada touro tenta mover-se tão rápido que é quase impossível contá-los. São touros de todos os tipos, tamanhos – de patas curtas e longas, aspas estreitas e largas, a ferocidade ibérica estampada em seus olhos vítreos. Um deles – o mais afamado, de pelos longos – tem no fundo deste olhar feroz um laivo azul mal esquecido. Todos estes touros bravios a correr de um lado ao outro, mas sem avançar em nenhum momento – e ele os enfrenta, gigante, galhardamente com sua fulgurante capa vermelha.
Mas o estranho – se pode existir algo estranho num sonho – é que não há damas com rosas vermelhas na boca , nem se escutam quaisquer bramidos de “olé” a cada movimento mais brusco, a cada avanço desnorteado de um touro, a cada pirueta larga que ele concede ao público com aquela capa rubra. Não: no sonho, se olhar ao redor, nas arquibancadas, verá apenas milhares de samurais e gueixas, guerreiros orientais que naquele momento não são mais do que platéia entusiasmada às suas intermitentes investidas cristalinas, disciplina férrea em movimentos estudados, sobre os quais os touros famosos e bravios não conseguem se impor. São rostos amarelos, torcendo um pouco pelos touros, um pouco pelo toureiro, meio sem saber. O que se escuta são apenas bramidos contidos, ao lado de um desbragado bando de torcedores do toureiro que vieram de longe apenas para sonhar mais de perto este sonho. Mas os orientais: só o que se sabe, neste sonho recorrente, é que aquela torcida não acreditava ser possível a aquele toureiro desconhecido segurar o bando indômito de touros ferozes, mas agora se maravilha menos com as arremetidas tastaveantes dos animais do que com os vôos consistentes e estudados da capa vermelha.
A capa vermelha que vai cansando os touros, pouco a pouco – eles, tão furiosos, que pensavam que chifrar o toureiro seria apenas uma questão de tempo.
E é então (quando já estão cansados os miúras famosos e bravios) que o toureiro, mais que apenas defender-se, dá o golpe que deixa a todos os animais prostrados de uma vez só – os onze, quinze, vinte, pouco importa. O que importa é que todos caem ao mesmo tempo, num único golpeio – o que só é possível nos sonhos que não se explicam.
Mas não faz mal: não é preciso explicar os sonhos de um campeão mundial.