Oferenda por Henrique Schneider

por Henrique Schneider

Eu queria te trazer o mundo – mas não é o que tenho e nem o que queres. Quem sabe então um campo inteiro de rosas não colhidas, mas onde os meus braços para abraçá-lo? Então a maciez da relva coberta de orvalho, mas quebraram-se os cântaros de recolhê-la. Ou o conforto ensolarado de um domingo de inverno – e, no entanto, me faltam dedos para colher o sol. Também poderia trazer-te uma pedra cheia e toda vestida de ouros e diamantes, mas nestas mãos que te estendo só cabem os cascalhinhos pequenos de minha vida vagamunda. Ou o brilho refletido das estrelas no lago, apanhadas no batel da noite, mas e se os meus olhos são feitos de dia? E, quem sabe então, o aroma que recende das lembranças das viagens? – mas o meu c oração ainda conhece tão pouco e deseja tão mais, tão mais. Queria te trazer o calor de todas as fogueiras, e, no entanto, ele vira gelo frente à quentura de teu olhar – então não o trago. As cores dos quadros não pintados e as palavras ainda não escritas nos livros – pensei nisso e não pensei, tentei trazê-los e também não tentei, e quando o fiz eles se desfizeram no caminho. E também queria te oferecer o tempo, mas o jornal de ontem não quis embrulhá-lo e não quero ainda agora as notícias de amanhã. Ou te oferecer o meu próprio tempo, este tempo todo que ainda tenho – mas não é o meu tempo o que deves desejar. Pensei em trazer-te o vento e desisti quando lembrei que ele já vive nas curvas dos teus cabelos. Uma cesta inteira de frutas que não existem, para que guardasses contigo todos os sabores, mas meus saltos curtos não alcançaram os galhos das árvores impo ssíveis. Então talvez um pote cheio de delicadezas, pensei, e, no entanto, elas seriam tão poucas junto às tuas tantas. Ou um livro inteiro das minhas ignorâncias, mas elas não cabem em um livro só. O cheiro dos eucaliptos no outono, o brilho do vôo cego dos anjos, o bater de asas dos colibris, a fonte eterna – tudo isso também quis trazer-te em oferenda, só que não tenho as forças nestes meus braços magros.

Pensei, por fim, te trazer todas as certezas – mas se eu ainda sou apenas um menino!

Não te ofereço nenhuma destas maravilhas. Elas não me cabem.

Por isso, só o que te trago agora são estas mãos vazias, e este jeito meio torto de me apaixonar.




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