Olhos cheios de azul

Henrique Schneider

Ainda que lhe sobrasse nas pernas o peso dos sessenta anos, era de garoto a excitação que lhe movia os caminhos da pressa. O mar, haviam lhe contado, era algo que não tinha explicação – e a ele, que ganhara a vida inteira tarrafeando rios no fainoso ofício da pesca, parecia que faltava algo à frase. As coisas todas têm explicação, pensava ele, cartesiano sem sabê-lo – inclusive o mar.

Mas agora que o levavam para conhecer esta massa líquida enorme e salgada, ele lembrava das águas doces pescadas nestes tantos anos e de suas margens sempre visíveis, e era um estremecimento que também não se explicava. Era ansiedade e não era. Era emoção, mas não era. Talvez, corrigiu-se ele enquanto já iam chegando nem todas as coisas precisem de explicação.

E quando aquele azul interminável brilhou à sua frente, estentóreo e majestoso de não ter fim, ele soube que o mar era isso mesmo – e não tinha explicação. Pés descalços na areia, as calças de domingo arregaçadas até os joelhos, ele cruzou os braços para que o coração não fugisse e permaneceu em silêncio, enquanto olhava o seu mar pela primeira vez. Buscou a outra margem com toda a força de seus olhos, e ela não havia. Buscou o fim do mar em seus lados, mas à esquerda e à direita o mundo era só água. Respirou fundo o seu desassossego, tentando recompor-se de tanta grandeza, e esfregou os olhos para ter a certeza de que estava mesmo ali. Só aí deu-se conta de que chorava.

Ficou parado uns cinco minutos, num silêncio espesso, respeitoso, ao que a água respondia com o marulhar cálido de suas ondas. O filho, que o trouxera numa viagem longa, aguardava companheiro o silêncio do pai – ambos sozinhos como se fossem nada e sendo tudo ao mesmo tempo. Depois, como se apercebendo de que faltava algo, o pescador achou que deveria sentir aquela água recém nascida. Andou em direção ao mar e deixou que as ondas lhe acariciassem os pés, os tornozelos, os joelhos, sem se importar em proteger a calça nova. Então abaixou-se, mãos em concha, e recolheu nelas um pouco daquela água. Bebeu-a com um esgar, porque era tão salgada quanto lhe haviam contado. Depois, como não houvesse nada mesmo para explicar, ficou ali outros minutos, apenas olhando e acreditando em tanta beleza. Quando, depois de um tempo, enfim falou algo para que o filho não percebesse que ainda tinha voz, como se resumisse a vida naquela frase:

“Agora já posso morrer.”




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