Ópera, charme e crítica

por José Castello
O Globo / Data: 22/5/2004

Minoridade crítica, de Luís Antônio Giron, é um livro de fronteira. É fronteiriço na identidade dupla de seu autor, jornalista competente e crítico acostumado às avaliações feitas no calor da hora, mas também professor e perseverante pesquisador da universidade, no caso a Escola de Comunicações e Artes da USP, na qual a versão original do livro foi apresentada como dissertação em musicologia histórica em 1999.

Como reflexo dessa identidade dupla, é livro que alia a pesquisa minuciosa de nove anos ao estilo elegante, direto e atraente da imprensa. É, ainda, um livro sobre a ópera e o teatro do Império, mas também sobre a imprensa, em particular os folhetins daquele período, e mais ainda sobre a literatura e os grandes autores, como Martins Pena, José de Alencar e Machado de Assis, que nela despontaram. Essa ambivalência confere ao livro um caráter absolutamente exemplar.

Ao jornalismo, ensina que o tempo, muitas vezes, é mais precioso que a velocidade, e que só podemos nos aproximar da verdade, no mais das vezes, com paciência e lentidão. À universidade, por sua vez, ensina que as dissertações de mestrado e doutorado podem ser realizadas com espírito apaixonado e, sobretudo, que exigem do autor não apenas que leia bem, mas que escreva bem. “Minoridade crítica” nos traz a história das origens da crítica musical no Brasil, fisgada em textos críticos publicados no Rio entre 1826 e 1861.

Entre os nomes mais famosos dessa fase inicial, como Saldanha Marinho, Émile Adêt e Joana Manso de Noronha, e mais tarde Andrade Muricy e H. J. Koellreutter, alinhavam-se as assinaturas de escritores iniciantes, que começaram como praticantes da crítica musical, como Martins Pena, Gonçalves Dias, Alencar e Machado. Essa origem ficou esquecida, ou recalcada, como Giron observa, porque esquecido ficou o capítulo referente à crítica. “Notadamente porque ela parece ter pouco a contribuir na série literária e filosófica”, disse ele. Para enfrentar esse menosprezo, Giron começou sua pesquisa no Primeiro Império (1822-1831), atravessou a Regência (1831-1840) e avançou pelas duas primeiras décadas do Segundo Império (1841 a 1861).

A música lírica surge no Brasil em 1813, com a abertura do Real Teatro de São João, que seria destruído em incêndio de 1824. O primeiro espetáculo é a ópera “Axur, Rei de Ormuz”, de Salieri, que estreou no ano seguinte. O primeiro livro de música editado no Brasil, “Notícia histórica da vida e das obras de Jose Haydn”, é de 1820. Em 26, surge o Imperial Teatro de São Pedro. Em 34, o francês Pierre Laforge funda a Sociedade Filarmônica. E começam a aparecer os críticos. Em 44, Joaquim Manuel de Macedo estréia na “Revista Brasiliense”. Em 48, é a vez de Gonçalves Dias iniciar seu folhetim dominical do “Correio Mercantil”. Em 54, José de Alencar passa a escrever crítica de música para “O Mercantil”. Em 59, enfim, Machado começa a exercer a crítica musical na revista “O Espelho”.

É nesse período, ainda, que, afirma o autor, “o pensamento estético no Brasil surge na prática da crítica musical, da pedagogia e da crônica”. “Minoridade crítica” pode, e deve ser lido, em conseqüência, como um estudo sobre o nascimento do pensamento estético brasileiro. A longa pesquisa brinda o leitor com preciosidades literárias, reunidas nas 200 páginas finais do livro, que oferece preciosa antologia de textos críticos publicados na imprensa entre 1826 e 1861. Martins Pena foi “o primeiro crítico musical brasileiro a ensaiar a autodefinição”, Giron recorda. Numa crônica, ele assim define o folhetinista: “Pode-se comparar o folhetinista ao homem que tendo diante de si uma cesta de frutas escolhe de preferência para saborear as tocadas, e podres, deixando às vezes as sãs e perfeitas”. É uma tarefa ingrata. Com uma visão historicista da música, Pena acreditava que ela evoluía junto ao progresso da civilização, sendo tarefa do crítico apontar os que resistem. Gonçalves Dias foi um “taquígrafo das sensações”. Antes de se tornar crítico, militara como repórter, aprendendo a perseguir com rapidez a agitação dos debates políticos. “Armado de técnica de anotar e fixar rapidamente sensações passageiras, Gonçalves Dias não se deixa apenas levar pelo que ouve”, diz Giron. Em conseqüência, escreveu comentários em estilo cortante, com sensibilidade para perceber, nos detalhes, o mais importante. Aos 25 anos, Alencar se tornou cronista. “A atividade marca o início da carreira literária de Alencar, que usará muitas das observações de seus folhetins em peças e romances”, Giron observa. Ele recorda que o escritor estava para o Rio assim como Baudelaire para Paris: foi testemunha sofisticada das aglomerações nas ruas, da inauguração dos boulevares, das galerias envidraças e movimento nas óperas. Mas, enquanto Baudelaire flanava por uma Paris rica e sofisticada, Alencar era “atropelado pelas carruagens nas ruas enlameadas, pelos especuladores da Praça do Comércio, pela falta de asseio de uma cidade dominada pelas epidemias”. Nesse cenário inóspito, ele se refugiou na crítica musical. Conservou um tom amargo, um desencanto, talvez porque se visse obrigado a praticar o folhetim segundo as regras de época, isto é, como um gênero do gracejo e da futilidade. Este “borboletear” sobre os eventos musicais levou-o a escrever uma crítica mais social e de costumes, que musical. As críticas assinadas a partir de 1859 por Machado são bem menos mundanas que as de Alencar ou Dias. Ainda assim, na primeira crônica, Machado adverte: “Não faço análise profundo, nem pretendo especializar defeitos”. Mesmo assim, em sua análise de estréia, de uma montagem de “Os mártires”, de Donizetti, ele fixa sua atenção mais nos camarotes e nos binóculos que na música. Contudo, no geral, diz Giron, Machado “não cobre eventos sociais e se atém a aspectos puramente estéticos”. Afasta-se do “estilo borboleteante” e volta as atenções para a detecção da “cor nacional” nos espetáculos. A prática da crítica musical levou-o, ainda, ao engajamento em campanhas públicas, como a da construção da Ópera Nacional.

JOSÉ CASTELLO é escritor e jornalista




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