Henrique Schneider
“Mas o maior problema, doutor, são os homenzinhos verdes que me infernizam a vida!” – o homem exclamou, como se finalmente conseguisse dizer o que o incomodava, já ao final desta primeira consulta ao psicólogo.
“Que homenzinhos verdes? E o que eles fazem?” – perguntou o doutor, sabendo que o assunto só poderia ser convenientemente tratado na próxima consulta: a hora do novo paciente chegava agora ao final.
“Estes homenzinhos que estão sempre ao meu redor, incomodando.” – e ele apontou, temeroso, um canto da mesa do psicólogo. – “Ali, vê? Ali estão eles, parados, sentados na sua escrivaninha, rindo para mim, me desafiando.”
O psicólogo olhou o canto indicado e lá só havia papéis intocados e a pesada estátua de Sigmund Freud – nem sinal de homenzinhos verdes.
“Mas o que eles fazem?” – ele repetiu a pergunta.
“São maus, perversos.” – respondeu o paciente. – “Só fazem coisas ruins.”
“Mas o que é que já lhe fizeram, por exemplo?”
“Para mim, nada, porque eu estou sempre me cuidando. Sempre prestando atenção às maldades deles. Mas para as pessoas com quem ando, já fizeram muita coisa ruim. Mas para mim, não. Eu me cuido.” – repetiu o homem, como se quisesse convencer-se.
“Certo, certo.” – respondeu o psicólogo. – “Mas nós vamos tratar melhor disso na próxima consulta. Hoje, infelizmente, estamos com o tempo encerrado.”
O paciente levantou-se, um pouco assustado, e buscou novamente o canto da escrivaninha. Depois saiu, despedindo-se com alguma desconfiança.
Sozinho no consultório, o psicólogo pôs-se a lavar as mãos, hábito antigo entre uma consulta e outra, enquanto pensava no que o outro lhe havia dito ainda há pouco: mais um caso de delírio. Mas não parecia dos mais sérios, considerou, ao tempo em que passava uma água no rosto.
Enquanto isso, a um canto da escrivaninha, quatro homenzinhos verdes agarravam a pesada estátua de bronze. O quinto, que parecia um chefe, já olhava fixamente para a nuca indefesa do psicólogo.