Os muitos véus que temos

por Dora Lorch

Era uma mulher mulçumana e vinha de véu, xador e tudo o que tinha direito. Num primeiro momento, houve a associação com o Oriente e as histórias das mil e uma noites, mas em seguida, me senti constrangida. Algo ali não estava certo e não tinha a ver com o aspecto religioso. Havia como que uma parede entre minha paciente e eu. Era como se mesmo ali, sozinhas, outros olhos nos observassem.

Depois de algumas sessões percebi que não era o véu de pano que incomodava, mas os inúmeros véus que aquela mulher e tantas outras carregam consigo. Era como se toda a tradição humana pudesse penetrar em seus medos, segredos e anseios. Não que ela quisesse algo tão absurdo: só queria melhorar o relacionamento com o marido.

Depois que ela saiu, fiquei pensando que nós mulheres temos muitos véus. Só que aqui, no Ocidente, os véus não são visíveis. Mesmo assim, cedemos a várias gerações de tradição e obediência à sociedade paternalista.

Por exemplo, as pesquisas mostram que grande parte das mulheres mantém relacionamento sexual com os companheiros para eles não ficarem bravos, para que não pensem que elas têm um caso, etc. De uma maneira ou de outra, parece que elas estão se “sujeitando” ao desejo do marido. Uma pesquisa aponta: mulheres constrangidas a manterem relacionamento com seus parceiros têm mais queixas ginecológicas[1]. Não seria esse um de nossos véus?

Trouxe o assunto para podermos conversar sobre aquela mulher que pulou do seu apartamento em Guarulhos. Pouco se sabe ainda sobre o que realmente aconteceu naquele dia, mas uma coisa é certa: para se jogar pela janela, ainda por cima com o filho pequeno, é porque lá dentro o perigo era maior. O desespero também.

Sabemos também que a mulher já havia feito boletins de ocorrência contra o ex-marido, que a agredira e ameaçara, mas nenhuma providência tinha sido tomada.

Quero falar um pouco sobre a lei Maria da Penha, que começou a vigorar a pouco tempo: a lei leva o nome de uma vítima que foi muito agredida pelo marido e que tentou matá-la duas vezes. Na segunda tentativa acabou por deixá-la paralítica.

Nesta ocasião, não muito tempo atrás, a “punição” para um homem que batia na mulher era somente a doação de uma cesta básica, ou mais ou menos R$ 50,00 como fiança. Mas Maria da Penha lutou como pôde, por ela e por uma legião de outras mulheres na mesma situação. Hoje a pena por agredir ou maltratar a mulher pode chegar a anos de cadeia. Bater (ou maltratar) a mulher, hoje no Brasil, é crime.

A lei determina que o homem que ameaça a mulher pode ser condenado a não chegar perto dela, de não poder ver os filhos menores, ou, dependendo do caso, até à prisão. Mas, uma coisa é existir a lei, outra coisa é fazer com que seja cumprida. E nós nem podemos culpar as autoridades, porque têm muito trabalho, e nem sempre dão conta de atender a tantos casos.

Ou seja, o juiz pode proibir que o marido chegue perto da mulher, mas se ele não cumprir, alguém tem que denunciar para que a polícia possa agir, e nem sempre a vítima tem condições de tomar as devidas providências. A mulher que está sendo ameaçada não pode ter vergonha de pedir ajuda e de ter amigas com quem contar, porque ela pode precisar. Por isso é tão vital que você não deixe sua vizinha sofrendo sem oferecer ajuda.

E aqui entra a nossa parte: conversar, apoiar as mulheres que estão ao nosso redor e estão padecendo, e até chamar a polícia se for o caso. Claro que ninguém quer se meter em relacionamentos, mas se você acha que sua vizinha, ou amiga, está sofrendo, pergunte que tipo de ajuda ela quer. Muitas vezes as pessoas ficam tão constrangidas com o comportamento do parceiro que não sabem nem o que precisam, de tanta vergonha. Vergonha de estar se submetendo a este tipo de atitude.

É preciso ir devagar e com delicadeza, porque quem não consegue sair deste círculo vicioso, pode estar tão fraca e deprimida que não encontra uma saída possível. E este é o papel de amiga e cidadã: ouvir, conversar, dar sua opinião e mostrar que ela pode contar com você. Quem sabe se, com mais solidariedade, as mulheres possam tirar os seus véus e evitar casos como o de Guarulhos.

[1] Anibal Faúndes, Ellen Hardy, Maria José Osis, Graciana Duarte: O Risco para Queixas Ginecológicase Disfunções Sexuais Segundo História de Violência Sexual; Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.22 no.3 Rio de Janeiro Apr. 2000

* Todos os casos relatados por mim são verídicos, mas os nomes e dados pessoais foram alterados para salvaguardar a identidade dos envolvidos.




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