Os olhos

por Henrique Schneider

Era inverno e eu dormia tranqüilo quando os cães começaram a latir. Olhei o despertador e era uma e meia da madrugada. Dei a mim mesmo o tempo dos cachorros pararem, certo de que isso aconteceria logo, mas não: os ladridos continuavam, mais e mais – diferentes, assustados. Esperei um tempo e gritei aos cães que parassem, mas eles apenas estancaram por um segundo o barulho, subitamente assustados pelo grito mal humorado justamente de quem esperavam auxílio, e depois recomeçaram sua algaravia.

Gritei ainda outra vez, mas então os dois vira-latas nem interromperam os latidos, frementes em sua agitação estranha.

Calcei os chinelos, vesti o roupão e desci as escadas, pronto a resolver logo a situação e voltar à quentura dos cobertores. Seria o latido inútil daquela dupla de cachorros bobos, pensei: o galho caído de alguma árvore do pátio, um sapo, algo que se mexesse por qualquer razão.

Mas quando abri a porta dos fundos e dali enxerguei o pátio, percebi que não seria assim: no canto, distantes e perdidos no meio da escuridão misteriosa do muro, dois olhos fixos me olhavam. Dois olhos assustados, mas (talvez por isso mesmo) dos quais também emanava um brilho assustador e único, forte a ponto de ensombrar quaisquer contornos: não se podia saber que tipo de bicho era aquele (se era mesmo um bicho), acuado no canto escuro do meu pátio. Dois olhos tão apavorados quanto apavorantes, acuados no pretume da noite e do pátio, e cujo brilho meio esverdeado era a única referência para o latido inabalável dos cães. Olhos que não se mexiam, que pareciam colados no muro de pedra, como se neles não existisse qualquer corpo. Olhos paralisados, que não se mexiam e não me deixavam me mexer. Eu me apavorei com aqueles olhos.

Os cachorros latiam ainda mais, sem saber por que e até quando. Eu não conseguia chegar perto e nem voltar para dentro de casa, apavorado que estava com aquele brilho inaguentável.

Ninguém se movia: os olhos em seu canto, acuados como se fosse aquela a sua última noite; os cães latindo e latindo sem avançar um centímetro; e eu, à soleira da porta, paralisado pela força portentosa daqueles olhos cuja fúria não aparecia, mas estava ali. Pensei pensar nas horas, enquanto tudo o que conseguia fazer era agarrar-me à porta: uma e meia da madrugada. Aquela seria uma noite muito longa.




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