Páginas de passeio

Henrique Schneider

Eduardo faz um gesto pequeno, e dois dragões brigam entre si despejando fogos. Desvia a mão, os dedos resvalam, e quem aparece, ensimesmado e parecendo não dar importância a nada mais, é um detetive vestido em seu capote cinzento e pronto para resolver outro caso. Ele pensa um pouco em ficar, desvendar junto ao detetive aquele novo crime, mas não: logo já está em sua frente um velho cego que conta histórias como ninguém, histórias de gaúchos e das ruas, do além e ainda mais, e que no meio de cada história dá um sorriso inexistente, que só os seus olhos vazios conseguem perceber. Dois passos ao lado, e a saga de uma família conta os passos criadores de toda uma terra, legando-os ao tempo, ao vento. Cem anos de maravilhas o esperam no passo seguinte, cem anos em que a solidão se constrói em guerras e peixinhos dourados, batalhas perdidas e borboletas amarelas. Ele espera um pouco por ali, a ver se aqueles cem anos se repetem outra e outra vez e ele se decida a ficar sempre e mais sempre no mesmo lugar encantado. Mas o século solitário e belo se esquiva e dá lugar a uma rebelião inominada, mineiros que descobrem o valor que têm no tempo, e daí a um pequeno lavador de pratos que, um século depois, ainda não consegue mensurar bem a própria importância. Volta um pouco, talvez assustado com aquela luta germinal – lutas germinais sempre assustam os incautos – e cai próximo às garras africanas de um leão, justamente a tempo de ser salvo pela coragem imperiosa de um homem que voa em cipós tão fortes como aqueles que sua infância tecia em lençóis enrolados. O homem o pousa, salvo e são, na outra margem do rio em que crocodilos estendem suas bocarras, e já o encontram os caminhos de vidro, que levam às cidades invisíveis. Mas nas cidades invisíveis ele não pode permanecer muito tempo, porque olha o relógio (há um homenzinho de chapéu enorme ao seu lado, reclamando que está atrasado) e se recorda que tem um compromisso. Uma reunião importante, pensa: se pudesse não ir, não iria, mas não há como.

Dá mais alguns passos e volta à rua de sempre, acinzentada, rumo ao compromisso.

Olha para trás e a Feira do Livro, respirando realidade, segue despejando fantasias em suas tendas.




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