por Dora Lorch
Manuela era uma mulher de poucas palavras e de pouco riso. Trouxe a filha para ser atendida pelo projeto Florescer da Fábrica, mas não falou muito a respeito. Foi entrando, ficando…
No início, só ouvia a conversa das mães aflitas por não saberem o que fazer com seus filhos. Um dia se encheu de coragem e contou que na “terra dela” ninguém ficava traumatizado com brigas e pancadas. Lembrou de um dia em que ela não queria tomar banho porque estava muito frio. O pai, irritado com a sua postura, sentou num banquinho, com uma tora no colo e disse:
— Agora tu vai tomar banho! – E ela teve que se lavar na bacia, na frente dele. Já era crescida, tinha “pelinhos” pelo corpo e morria de vergonha do pai. Sabia que se não obedecesse ia apanhar de pau. E completou dizendo que isso não tinha feito mal nenhum a ela. Pelo contrário, todos os filhos eram pessoas honestas.
Essa história foi contada sem nenhuma emoção. Achei estranho. Comentei que sentia muito por ela ter passado por momentos tão difíceis. Achei que ela tinha sofrido de medo e de vergonha, e que isso deveria tê-la marcado fundo. Ela me olhou como se não tivesse entendendo.
Tempos depois, Manuela contou que a filha demorou a chegar certo dia. Ela esperou pela menina na porta com um pau na mão. Então, decidi conversar:
— Manuela, não se pode bater nos filhos. É contra a lei.
— Quer dizer que se eu quiser esperar minha filha com um pau na mão não pode?
— Não pode bater nos filhos de jeito nenhum, nem com pau, nem com mão, nem com nada.
Esperar com um pau na mão… Acho que já vi este filme.
Outro dia, Manuela apareceu muito nervosa porque a filha tinha sido suspensa do projeto social que freqüentava. O motivo: a menina tinha reclamado de um menino ter passado a mão nela e ambos foram suspensos. Manuela estava brava com a filha.
Mas nós ficamos contrariados com o projeto social. Que negócio é esse de punir a menina porque alguém passou a mão nela? Que postura machista! Como a mãe não tomou a defesa da filha? Manuela não tinha pensado dessa forma. Estava tão acostumada a cumprir regras e a apanhar por desobedecer que não conseguia ver quando ela – ou a filha – tinha razão. Talvez, a postura do pai de Manuela tivesse deixado algumas seqüelas…
O debate naquela semana foi acalorado, todos os pais achavam que Manuela devia tomar uma atitude e falar diretamente com a coordenação do projeto. Mas ela se sentia fraca para reagir. Então, comprei a briga:
— Pode falar em nome do Florescer da Fábrica e diga que, se for preciso, vou explicar nosso ponto de vista a eles.
Na semana seguinte, Manuela, vitoriosa, contou ao grupo que viu a filha triste por não estar no projeto e decidiu intervir. Do jeito que estava, de chinelo de dedo e tudo, foi ao projeto social e disse que queria falar com a coordenadora. Ela foi logo dizendo que certas decisões não poderiam ser modificadas, mas mudou de idéia quando ouviu os motivos de Manuela e o apoio do Florescer da Fábrica. No dia seguinte, a filha de Manuela já estava absolvida. E a mãe contou como foi bom poder defender sua filha.
A partir desse dia, a menina parecia mais mocinha, sempre usando saia, sandália e cabelo solto. Então chegou o fim do ano. A família da Manuela parecia mais integrada, todos mais leves, melhores na escola. Ela mais calma, mais cúmplice das meninas. O grupo de profissionais do projeto decidiu dar alta à família.
Foi quando Manuela contou que veio ao Florescer da Fábrica porque batia muito nas filhas. Batia tanto nas pernas que elas tinham de andar de calça comprida para esconder as marcas das pauladas. E ameaçava de bater ainda mais se elas contassem ao pai. Agora estava mais tranqüila, conseguia conversar e, se fosse o caso, dar castigos. Bater, não mais!
Finalmente tinha entendido a felicidade da sua filha. Usar saia representava mais do que ser mocinha: significava o fim da opressão. Lembrei quando disse a sua mãe que ela não podia bater nos filhos, quando apontei sua dor frente ao seu pai, quando a incitamos a ser mãe e defender sua filha.
Pensei na frase que ouço sempre: “Apanhei porque precisava.” Quem precisa apanhar? Sei o quanto ameaças e pauladas ferem a alma. Vejo pessoas que apanharam, intimidadas, encolhidas, com receio do mundo, com medo de arriscar, medo até de pensar novos caminhos.
E ainda tem gente que acha que bater não traz conseqüências ruins…
Ajudar o cuidador[1] pode transformar uma família.
* Todos os casos relatados por mim são verídicos, mas os nomes e dados pessoais foram alterados para salvaguardar a identidade dos envolvidos.
lendo essa história lembro – me de um período da minha vida, sendo que aí eu era a sofredora por ter um esposo violento comigo e com os filhos.tomara que ele tenha tomado jeito porque o abandonei antes que acontecesse um tragédia.