Palimpsesto estranho e insano

por Cláudia Nina
Jornal do Brasil / Data: 11/12/2004

Jornalista não parece nada interessado na realidade

Palavras amontoadas, doces ausências de sentido. Fábulas mal escritas. Memórias de um insano pobre em capítulos. Essas são algumas das muitas definições encontradas dispersas em Até nunca mais por enquanto, de Luiz Antônio Giron, na tentativa de descrever a natureza deste livro estranhíssimo, em que o autor escreve como se a todo o instante estivesse revisando um palimpsesto: fazendo e desfazendo, apagando umas frases e mantendo outras de maneira que um texto sobreposto ao outro tenha – ou não, o que é mais freqüente – algum sentido. Mas sentido não é propriamente o que se pretende neste insólito volume de contos. Depois de escrever ficção, crônicas, reportagens e ensaios, o jornalista e crítico de música gaúcho, especializado na ópera e no teatro do século 19, não parece estar muito interessado em realidade. Pelo menos nos termos mais banais do que se chama de representação. Seu compromisso é com uma realidade paralela que se constrói quando a tranca que fecha o fluxo da consciência se abre. É quando surge um discurso desarticulado, sofisticado porém, tramado por várias vozes em tempos diversos e desconexos. Uma espécie de linguagem vertiginosa que pertence, não ao sonho, mas aos pesadelos.

O objetivo não é a comunicação, o entretenimento, o fazer-se entender. Escrever claro e direto, como num texto de jornal, não pertence à programação de Giron nesta seleção de contos. Pelo contrário: nada tem a ver com nada e cada história é um exercício que desperta no leitor dois tipos de reações totalmente antagônicas – ou aborrece ou intriga. Sabe-se minimamente do que se trata algumas delas. Em Tarde infeliz, por exemplo, tem-se um escritor revoltado com uma tal de Marta que lhe entrega, a título de análise, os originais de seus primeiros e imprestáveis poemas; em Apologia de Betty Boop, sonhos eróticos com a personagem de animação; em O conde molhado, o narrador está apaixonado por uma cantora e atriz que pela primeira vez interpretou Carmen, de Bizet; em Pseudo-Tobolli, um dos melhores, o narrador fala de um famoso tenor morto, onde se lê um trecho que ilustra bem a proposta do livro: ”Não sou um analista, meus divãs espalhados pelas salas significam o meu repúdio à normalidade (…) Sou esta tarde e uma espécie de confessor ou padre indulgente que quer prestar atenção a tudo”. O nonsense segue na mesma linha em Do século crescendo, em que alguém confinado numa banheira brinca com soldadinhos. A linguagem, longe de ser infantil, é marcada por contínuas referências à sangue e à morte – imagem presente em muitos contos, como em Nimbado de cloro, quando sai do congelador um certo Tio Adalberto, remanescente da Guerra do Paraguai, ”extinto” havia três anos. Curioso é como o humor irrompe de repente, quebrando toda e qualquer acomodação de ritmo. No meio da história, sem nenhuma ligação com nada, o narrador diz: ”Assim é que me veio de novo a preocupação de comer broas”. Ao final, num sub-capítulo intitulado ”Previsão de palimpsesto”, o autor faz uma espécie de revisão de si mesmo e de seus métodos de escrita: ”Escrevi tudo neste caderno, em português coitado, parece evidente que eu esteja num tempo do fato que aqui será narrado. Não estou. Escreverei aqui antes de agir. Sempre tanto fez que fosse antes ou depois, não observei referenciais durante o relato, pulando de um tempo a outro sem preocupação.” Também sem nenhuma preocupação em pontuar – muitas vezes um conto não traz uma vírgula sequer – e mantendo ralos compromissos com o sentido, como foi dito, Até nunca mais por enquanto está longe de ser o que Roland Barthes definiria por ”texto de prazer”, aquele que pertence à cultura, englobando obras legíveis e interpretáveis segundo códigos estáveis e conhecidos. É mais certo aproximar a primeira incursão de Giron às narrativas curtas dos ”textos de fruição”, aqueles que, ainda segundo Barthes, podem causar um certo aborrecimento, mas são sempre uma caixa de surpresas, pois entram em crise com a linguagem e produzem um outro tipo de escrita – estranha e imprevisível.




*nome

*e-mail

site ou blog

comente a postagem :: tentativas de contato por comentário serão bloqueadas