Para entender o amor e a paixão

por Moacyr Scliar
O Estado de S. Paulo / Data: 13/11/2005

Tema é destrinchado em estudo da professora Mary Del Priore

“Another damned, thick, square book – always scribble, scribble, scribble! Eh, Mr. Gibbon?”(“Outro maldito, espesso, quadrado livro – sempre escrevinhando, escrevinhando, escrevinhando! Hein, Mister Gibbon?) Este foi o comentário que o duque de Gloucester dirigiu ao grande historiador Edward Gibbon, ao receber dele o segundo volume do clássico O Declínio e a Queda do Império Romano. Por mais grosseiro que fosse o duque, e bota grosseiro nisso, jamais conseguiria dirigir palavras semelhantes acerca de História do Amor no Brasil . É uma obra fascinante, em primeiro lugar pelo tema. Para a maioria das pessoas, amor não é apenas um sentimento; é o motor da vida, a inspiração para poemas, canções, obras de arte. A idéia que se tem do amor é que é eterno, imutável. Mas o amor, como tudo, tem uma história. E conhecer a história do amor é uma forma de entender o que significa, afinal, amar. Ninguém melhor para nos contar esta história (e as estórias que a compõem) do que Mary Del Priore . Professora da USP e da PUC/RJ, é autora de duas dezenas de livros. História das Crianças no Brasil e História das Mulheres no Brasil receberam o Prêmio Casa-Grande & Senzala da Fundação Joaquim Nabuco; a segunda recebeu também o Jabuti de Ciências Sociais. Combina o conhecimento acadêmico com um estilo fluente, agradável, que evita a maçante erudição. Na obra, bem ilustrada, ela recorre a fontes literárias para nos dar uma verdadeira antologia de poetas e ficcionistas que escreveram sobre o amor e a paixão. O livro começa com o Brasil Colônia, influenciado pelas concepções e costumes da Europa. O amor, então, pouco tinha de poético. Mary fala-nos de “práticas patriarcais e machistas, que, ao transplantar-se para a colônia trazem em seu bojo a mentalidade de uma desigualdade profunda entre os sexos. Ao homem, a vida na rua, a vida pública. Para a mulher, a vida em casa, na privacidade”. O que, no caso do homem , levou a uma hipócrita duplicidade. Havia o casamento, pensado sobretudo em termos de dote, de propriedade, e de família; e havia o sexo, a paixão, fora do leito conjugal. No século 19 surge, no Brasil como na Europa, o ideal do amor romântico, incorporando elementos do amor-paixão e muito bem retratado na literatura da época, sobretudo naquele gênero literário de enorme popularidade, o romance. Este ideal refletia também o clima político do século 19, com suas transformações modernizadoras. Amor e liberdade, amor e realização pessoal, estão agora associados, tanto na vida sentimental como nos lemas libertários. Mas, diz Mary, “a despeito do discurso romântico, o casamento era organizado como uma verdadeira camisa-de-força social”, atendendo às exigências de um “mercado matrimonial”. Em função deste, as mulheres eram divididas em esposas, para o casamento, e prostitutas, para o prazer. Com o bordel, emerge um problema que chega a preocupar a saúde pública: a sífilis. Agora, os jornais estavam cheios de anúncios de medicamentos para a doença. Surge a preocupação com a masturbação, fomentada pelos “livros que se liam com uma mão só” e severamente reprimida por pais, professores, médicos. As mulheres não eram imunes à patologia sexual. O mal da época era a histeria (o termo vem do grego hysteros, útero), estudada na França por Charcot ( foi na qualidade de discípulo deste que Freud postulou a teoria do conflito sexual inconsciente). Também a homossexualidade era considerada doença. Mas o século 20 viria a impor novas transformações nas idéias, nos sentimentos, nos costumes. É o século que verá o pleno uso do telégrafo, da eletricidade, do automóvel. Acelera-se o processo de urbanização, de industrialização. Os esportes criam novo padrão de beleza. A liberação dos costumes culminará na revolução sexual. O resultado?, pergunta Mary Del Priore e ela própria responde: “Escreve-se cada vez mais sobre a banalização da sexualidade e o desencantamento dos corações enquanto o amor mantém-se um sentimento sutil e importante que continua a fazer sonhar.”




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